Marketing na caçamba
Versão Cross da Saveiro ajuda pick-up compacta a retomar a vice-liderança do segmento
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Luiza Dantas/Carta Z Notícias
A Volkswagen percebeu que tinha de seguir o líder. No segmento de pick-ups compactas, isso significa adotar as soluções da Fiat. Tanto que, depois de lançar a nova geração da Saveiro no ano passado, meses depois tratou de estrear a Cross, uma derivação com aparência off-road. Até para se precaver para a chegada da Peugeot Hoggar e sua versão Escapade. E na mesma receita mercadológica da concorrência: suspensão reforçada, pneus de uso misto e apliques visuais jipeiros. Além disso, trata-se da versão mais completa e sempre na configuração cabine estendida – também invenção da rival, que deu um passo à frente com o lançamento da Strada cabine dupla. Apesar de pouco original, a estratégia dá seus primeiros frutos. Lançada em março, com dois meses de vida a Cross já responde por mais de 10% das vendas totais da Saveiro. E ajudou o modelo a retomar a vice-liderança do segmento, antes nas rodas da Chevrolet Montana. Agora, à sua frente, só aparece a Strada.
O modelo parte dos R$ 42.380 e conta com uma boa lista de itens de série. Estão lá direção hidráulica, trio elétrico, regulagem de altura do banco do motorista, alarme na chave tipo canivete, para-sóis com espelho iluminado, iluminação do compartimento de carga, ajustes de altura e de profundidade do volante, computador de bordo, sensor de obstáculos traseiro, entre outros. Fica mais barato que a Fiat Strada Adventure Locker, que parte de R$ 47.240, sem oferecer retrovisores elétricos, sensor de estacionamento ou ajustes do banco, mas que conta com ar, estribos e janela traseira corrediça de série, além bloqueio eletrônico do diferencial dianteiro. E pouca coisa mais em conta que os R$ 43.500 da Hoggar Escapade, que só tem cabine simples e oferece ar e estribos a mais, mas só oferece como único opcional o airbag.
Com ar, a Saveiro Cross chega a R$ 45.260. Com todos os opcionais, que incluem airbag duplo, freios com ABS, função coming/leaving home, volante multifuncional e rádio/CD/MP3 com entradas USB e SD card e conexão Bluetooth alcança R$ 48.440. Por fora, a versão aventureira da pick-up da Volks conta com os apliques típicos do chamado “off-road light”. Molduras pretas nos para-lamas, na saia dianteira e nas laterais, bagageiro que forma uma espécie de santantônio na ponta do teto, pneus de uso misto 205/60 em rodas de liga leve aro 15, spoiler traseiro, faróis e lanterna de neblina e capota marítima.
Visualmente, a Saveiro conta com um estilo que, se não é ousado, pelo menos é mais moderno que principal o da rival da Fiat, apesar de a Hoggar ser bem mais arrojada. Na frente, a pick-up da Volkswagen conta com o mesmo desenho do Gol, com faróis angulosos e com desenhos irregulares, grade trapezoidal e capô abaulado com duas saliências, reforçados pelos apliques jipeiros da versão Cross. Nas laterais, a linha de cintura levemente em cunha “combina” com um pequeno vinco na parte inferior da lataria. Na traseira, um visual bem simples, com lanternas predominantemente horizontais de contornos arredondados.
No motor, a Saveiro também não empolga. Usa o manjado motor EA-111 VHT 1.6, que gera 101 cv de potência com gasolina e 104 cv com etanol a 5.250 rpm e torque máximo de 15,4 e 15,6 kgfm aos 2.500 giros. A Hoggar Escapade tem um 1.6 16V de 111/113 cv, enquanto a Strada Adventure conta com o 1.8 de 112/114 cv. Mas a Volkswagen parece não ter pressa. Até porque, a nova geração da Saveiro levou pelo menos oito meses desde o lançamento, em agosto do ano passado, para passar da média de 2.200 unidades mensais para quase 5 mil unidades/mês e se consolidar na vice-liderança. Enquanto isso, a Strada passou a vender em torno de 8.500 unidades/mês. Nesse ritmo da Saveiro, o primeiro lugar tem de ser um objetivo de longuíssimo prazo.
Instantâneas
# A primeira geração da Saveiro surgiu em 1982 como a derivação pick-up da família BX – que incluía Gol, Parati e Voyage.
# A pick-up compacta da Volkswagen acompanhou as reestilizações da linha Gol: em 1994, 1999 e 2005.
# A atual geração foi lançada em agosto de 2009, pouco mais de um ano depois da chegada do novo Gol.
# A Saveiro é vendida em outras cinco versões: 1.6 – R$ 32.450 –, Trend 1.6 – R$ 33.390 –, Trend 1.6 cabine estendida – R$ 36.250 –, Trooper 1.6 – R$ 38.160 – e Trooper 1.6 cabine estendida – R$ 40.820.
# A pick-up atualmente utiliza a mesma plataforma da linha Gol, derivada do Fox que, por sua vez, é uma versão simplificada da arquitetura do Polo brasileiro, chamada de PQ24, com elementos da geração atual da Europa, a PQ25.
Ficha técnica
Volkswagen Saveiro Cross 1.6
Motor: A gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.598 cm³, quatro cilindros em linha, duas válvulas por cilindro e comando simples de válvulas no cabeçote. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 101 cv com gasolina e 104 cv com etanol a 5.250 rpm.
Torque máximo: 15,4 kgfm com gasolina e 15,6 kgfm com etanol a 2.500 rpm.
Diâmetro e curso: 76,5 mm x 86,9 mm. Taxa de compressão: 12,1:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços triangulares transversais, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira interdependente, com braços longitudinais, molas helicoidais superprogressivas e amortecedores hidráulicos. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e tambores atrás. Oferece ABS com EBD como opcional.
Pneus: 205/60 R15 All Terrain em rodas de liga leve.
Carroceria: Pick-up cabine estendida em monobloco com duas portas e dois lugares. Dimensões: 4,49 metros de comprimento, 1,70 m de largura, 1,49 m de altura e 2,75 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal como opcional.
Peso: 1.074 kg em ordem de marcha, com 661 kg de carga útil.
Capacidade da caçamba: 734 litros.
Tanque de combustível: 55 litros.
Produção: São Bernardo do Campo, São Paulo.
Lançamento desta geração: 2009.
Ponto a ponto
Desempenho – O veterano motor 1.6 confere uma performance correta à pick-up da Volkswagen quando vazia. Afinal, são 1.074 kg e os 104 cv – com etanol – emprestam certa agilidade ao modelo. O propulsor responde bem às investidas no pedal do acelerador e as relações curtas das duas primeiras marchas contribuem para um zero a 100 km/h em competentes 10,7 segundos. As retomadas são mais interessantes. O torque de 15,6 kgfm já disponível aos 2.500 giros enche cedo o motor e o 60 km/h a 100 km/h em quarta é obtido em 8,6 s. A máxima, com paciência, é de 175 km/h. Nota 8.
Estabilidade – Os pneus de uso misto e os amortecedores melhor calibrados na traseira garantem um comportamento dinâmico bem mais interessante à versão Cross, mesmo na comparação com as outras configurações da linha. A Trooper, por exemplo, sofre com ventos laterais e sai bastante nas curvas, enquanto a Cross se mostra mais no chão. A carroceria torce nas curvas, é verdade, mas o modelo não faz menção de desgarrar em velocidades medianas. Nas retas, contudo, a sensação de flutuação já surge nos 120 km/h. Nas freadas bruscas, a traseira levanta bastante, algo comum em uma pick-up vazia. Nota 7.
Interatividade – Os comandos dentro da Saveiro são bem posicionados e bastante intuitivos. O quadro de instrumentos oferece visualização fácil e objetiva, mas o manuseio do computador de bordo não chega a ser simples. O modelo oferece ajustes de altura e profundidade do volante. Já o ajuste de altura do banco do motorista é bastante precário e limitado. A dirigibilidade ainda é facilitada pela boa visibilidade dianteira, pela direção precisa e pelo câmbio de passadas curtas e engates precisos – porém, pouco macios. A visibilidade traseira, em geral ruim em pick-ups pequenas, é piorada pelas barras transversais sobre o vidro traseiro. Menos mal que a Cross conta com sensor de obstáculos. Nota 7.
Consumo – O modelo avaliado fez a média de 6,6 km/l com etanol e uso 2/3 na cidade. Nota 6.
Tecnologia – O modelo usa uma plataforma recente, de 2008, mas que, na verdade, é uma versão simplificada da usada no Polo brasileiro, de 2002, com desenvolvimentos apresentados no novo Polo europeu, lançado em 2009. O motor é o veterano EA-111 e a transmissão também é a conhecida MQ 200. O número de itens de conforto está dentro do previsto, enquanto os de segurança só incluem ABS e airbag duplo, disponíveis apenas como opcionais. Nota 6.
Conforto – A configuração Cross parece mais bem acertada e melhor calibrada, o que significa uma melhor filtragem das irregularidades da pista. Mesmo assim, em trechos mais acidentados e de terra, os sacolejos dentro do habitáculo são inevitáveis. O espaço para pernas é o normal para um compacto, com limitações para os joelhos, enquanto o vão para cabeças é beneficiado pela boa altura do modelo. O isolamento acústico falha já aos 100 km/h. Nota 7.
Habitabilidade – As amplas portas facilitam o acesso ao interior e a cabine estendida oferece um bom espaço atrás dos bancos, que acomoda malas pequenas e mochilas. A iluminação é eficiente. Já o número de porta-objetos e de porta-copos poderia ser maior. Nota 7.
Acabamento – A Saveiro Cross conta com um acabamento bastante simples. Os revestimentos de painéis, portas e bancos são até agradáveis aos olhos e ao tato, mas há abuso de peças plásticos, uma espécie de regra dentro do segmento de compactos. Além disso, alguns encaixes são imprecisos, como os do porta-luvas, e há alguns sinais de rebarbas no teto e nas borrachas de vedação das janelas. Nota 6.
Design – A Saveiro é uma das mais moderninhas no segmento e usa a frente do Gol. A traseira, contudo, é bastante comportada e no visual geral o modelo não oferece qualquer arrojo ou ousadia, como é de praxe na maioria dos modelos da Volkswagen. Mas a versão Cross reforça a robustez com os apliques visuais que remetem ao fora-de-estrada. Nota 7.
Custo/benefício – A Cross usa a estratégia da roupagem aventureira para fazer frente aos outros pseudo-off-road do segmento, como Hoggar Escapade e Strada Adventure. Parte dos R$ 42.380, reúne uma boa lista de itens de série e fica bem competitiva perante seus rivais. Nota 7.
Total – A Saveiro Cross somou 68 em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Aventura sob medida
A fantasia jipeira da Saveiro na versão Cross impressiona pela adição de robustez ao modelo. Robustez que também pode ser conferida no desempenho da nova configuração. Com suspensão reforçada, amortecedores recalibrados e pneus de uso misto, a Cross se mostra bem mais interessante que o restante da linha. Primeiramente pela estabilidade. A Saveiro Cross é mais acertada nas curvas, não faz menção de sair de frente e torce a carroceria dentro da normalidade. Além disso, o modelo não sofre com ventos laterais. Mesmo assim, a sensação de flutuação surge já aos 120 km/h, quando o motorista passa a fazer correções constantes na direção.
O conforto também é beneficiado. Enquanto as versões da pick-up compacta, como a Trooper, sofrem nas buraqueiras das grandes cidades brasileiras, sem absorver bem as irregularidades, a Cross é melhor ajustada e lida bem com os terrenos acidentados. Mas é bom lembrar que, em pisos mais severos, os ocupantes sofrem. E melhor ainda não esquecer que, apesar da proposta visual fora-de-estrada, esta configuração da Saveiro só tem ganho de força e resistência para trechos menos amistosos, mas não tem itens realmente off-road, como tração 4X4 ou diferencial blocante, o que a capacitariam para uma trilha leve.
No desempenho, a pick-up da Volks mostra desenvoltura. Os 104 cv garantem arrancadas satisfatórias, com um zero a 100 km/h em 10,7 segundos. Um desempenho competente ajudado pelo peso da pick-up de pouco mais de uma tonelada – e pelo câmbio muito bem escalonado, com relações curtas entre a primeira e segunda e entre a segunda e terceira marchas. Na hora de encarar trechos de subida e ultrapassagens, a Saveiro garante boas retomadas. O motor enche já nas 2.500 rotações e otimiza a performance do modelo. Depois dos 110 km/h, contudo, é preciso pé fundo e paciência para colocar o ponteiro do velocímetro nos 170 km/h.
A vida a bordo oferece o que se espera de um modelo do segmento dos compactos. Espaço limitado para pernas e acabamento com algumas falhas aparentes. O teto elevado da Saveiro aumenta a sensação de amplitude a bordo e a posição elevada de dirigir facilita a vida do motorista. A ergonomia é razoável – o ajuste de altura do banco do motorista é tosco – e o modelo conta com um câmbio com engates precisos e relações curtas. No consumo, a Saveiro se junta aos modelos flex “beberrões” contemporâneos e anotou a média de 6,6 km/l com uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada.