NA CARA DO GOL
Com pouco mais de dois meses de vendas, novo Uno já ameaça uma longa liderança no mercado brasileiro de automóveis
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Luiza Dantas/Carta Z Notícias
Parecia algo muito ambicioso. Tanto que nem durante o lançamento do novo Uno a Fiat falou em tomar do Volkswagen Gol a liderança de mais de 20 anos do mercado brasileiro de automóveis. Talvez tenha sido por precaução ou por não ter certeza de como o público reagiria ao design e à proposta moderninha da nova geração do hatch da marca italiana. O fato é que o carrinho agradou. E o Gol, efetivamente, já começa a ter a imagem incômoda do rival no retrovisor.
No primeiro mês cheio de vendas, o Uno ficou 3 mil unidades atrás do concorrente – 22.179 a 19.130. É verdade que a nova geração responde por pouco mais de 50% das vendas totais, enquanto o restante cabe à veterana geração chamada apenas de Mille. Mas o próprio Gol também divide, em menor escala, vendas com sua antiga geração – no caso do modelo da Volks, 20% são do modelo velho. Ao mesmo tempo, o Uno ainda não começou as vendas da derivação duas portas – que terá preço mais acessível que as de quatro portas. De qualquer forma, o sucesso do novo compacto da Fiat é evidente e segue uma receita lógica muito bem aplicada pela marca: design moderno com custo/benefício atraente.
Para início de conversa, o renovado compacto feito na planta mineira de Betim parece ser muito mais moderno que seus rivais do segmento. Com seu estilo quadrado com contornos arredondados, exibe linhas ousadas com um nicho do mercado cheio de desenhos previsíveis. Mas o compacto da Fiat também segue uma receita infalível dentro de um segmento sensível a custo. Chega com poucos itens, mas preços atraentes para o famoso “a partir de” das campanhas publicitárias.
O novo Uno começa em R$ 27.590 na versão básica Vivace com motor 1.0. Na Attractive avaliada, custa a partir de R$ 31.360. Oferece um propulsor mais potente, o 1.4 Fire Evo de 85/88 cv de potência e 12,4/12,5 kgfm de torque máximo. Mas a lista de equipamentos está dentro do esperado. Ou seja, é muito enxuta. A configuração conta apenas com ajuste de atura do volante, banco traseiro rebatível, console no teto com espelho auxiliar, abertura interna das tampas do tanque de combustível e do porta-malas, para-sóis com espelhos, conta-giros, porta-óculos, limpador e lavador do vidro traseiro, relógio digital, porta-luvas iluminado, maçanetas, carcaças dos retrovisores e para-choques na cor do veículo.
Desta forma, o Uno Attractive mira exatamente no Gol 1.6. A versão do compacto da Volks tem praticamente os mesmos equipamentos e começa em R$ 34.500. Já o rol de opcionais do carro da Fiat é vasto. Só para receber ar-condicionado e direção hidráulica, o Uno Attractive sobe para R$ 37.927. O modelo pode receber ainda airbag duplo, freios com ABS, travas e vidros dianteiros elétricos, para-brisa degradé, faróis de neblina, revestimento em veludo dos bancos e painéis das portas, volante em couro, regulagem de altura do assento do motorista, porta-objetos móvel – cinzeiro – terceiro encosto de cabeças no banco de trás, rádio Connect com Bluetooth, CD/MP3 e entradas USB e rodas de liga leve aro 14. Completo de tudo, vai a R$ 45.668. Sem dúvida, um valor bem menos divertido que o design do novo Uno.
Instantâneas
# O novo Uno foi desenvolvido pelo Centro Estilo Fiat para América Latina em conjunto com a matriz italiana.
# O projeto, conhecido como 327, foi elaborado no Polo de Desenvolvimento Giovanni Agnelli, em Betim, Minas Gerais.
# O compacto também é vendido nas versões Vivace 1.0 – R$ 27.590 -, Way 1.0 – R$ 28.750 – e Way 1.4 – R$ 32.160.
# O novo Uno tem seis opções de kit de personalização externa: Square e Smile para a Vivace, Jeans e Sunny para a Attractive, e Tribal e Steel para a Way. Há mais três pacotes de concessionárias: WWW, Arabesco e Podium.
Ficha técnica - Fiat Uno Attractive 1.4
Motor: A gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.368 cm³, com quatro cilindros em linha, duas válvulas por cilindro e comando simples no cabeçote. Acelerador eletrônico e injeção eletrônica multiponto seqüencial.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 85 cv a com gasolina e 88 cv com etanol a 5.750 rpm.
Torque máximo: 12,4 kgfm com gasolina e 12,5 kgfm com etanol a 3.500 rpm.
Diâmetro e curso: 72,0 mm X 84,0 mm. Taxa de compressão: 12,35:1
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços oscilantes inferiores transversais, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira semi-independente por eixo de torção, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Não oferece controle de estabilidade.
Freios: Discos sólidos na frente e tambores atrás. Oferece ABS e EBD como opcionais.
Carroceria: Hatch em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 3,77 metros de comprimento, 1,65 m de largura, 1,55 m de altura e 2,37 m de distância entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal.
Peso: 925 kg, com 400 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 290 litros.
Tanque de combustível: 48 litros.
Produção: Betim, Minas Gerais.
Lançamento: 2010.
Ponto a ponto
Desempenho – O novo motor 1.4 Fire Evo não é nenhum arroubo de arrojo, mas o baixo peso do carro – 925 kg – fazem com que os 88 cv com etanol deem conta do recado para o carrinho no trânsito urbano. As arrancadas, porém, são as esperadas de um carro com essa potência e o zero a 100 km/h é cumprido em 11,7 segundos. Contribui para isso um câmbio bem escalonado, com as primeiras relações mais curtas. As retomadas, porém, são a melhor parte da performance de compacto. Isso por que, aos 2.500 giros, o motor do Uno já oferece quase toda a totalidade do seu torque. A máxima obtida foi de 165 km/h. Nota 7.
Estabilidade – O novo Uno é um carrinho feito mesmo para andar em velocidades moderadas na cidade. Nas curvas, o modelo torce a carroceria e faz alguma menção de sair de frente quando se entra mais agressivamente. Nas retas, a comunicação entre rodas e volante já exige algumas correções partir dos 120 km/h. O modelo se porta bem em freadas, sem mergulhar em demasia a frente. O ABS – que é opcional – ajudou a manter o carro sob controle nas paradas bruscas. Nota 6.
Interatividade – É um carro bem pensado para o motorista, que tem praticamente todos os comandos intuitivos e ao alcance das mãos. A regulagem de altura do volante e a posição elevada do banco contribuem para a boa dirigibilidade do Uno. A visibilidade é boa e a direção é suave e precisa. O câmbio, contudo, tem engates pouco precisos e é um pouco áspero em alguns momentos. O quadro de instrumentos tem visualização objetiva e clara. Nota 8.
Consumo – O modelo testado anotou a média com etanol de 7,7 km/l em uso 2/3 na cidade. Nota 7.
Tecnologia – O Uno usa uma arquitetura nova, lançada este ano e que vai servir para a futura geração do Palio. Para um segmento de plataformas veteranas, não deixa de ser um avanço. O modelo também conta com uma nova linha de motores Fire Evo. Mas a lista de equipamentos de série de conforto e de segurança na versão Attractive é, para dizer o mínimo, pouco atrativa. Nota 7.
Conforto – Para um compacto, há até um bom espaço para pernas e a altura do modelo aumenta a sensação de amplitude a bordo. O vão para cabeças atrás também é interessante, mas no banco traseiro só dois adultos viajam com folgas. Lateralmente, a sensação é que o espaço entre uma porta e outra é ligeiramente menor que o do Mille. A suspensão bem calibrada até absorve com eficiência as imperfeições da pista, mas o isolamento acústico é uma falha – literalmente – gritante no projeto do compacto. Aos 100 km/h, os barulhos do motor e de rodagens já tomam o habitáculo e torna-se até difícil conversar a bordo. Nota 6.
Habitabilidade – Há interessantes porta-copos e porta-garrafas no console central e nas portas. Os acessos dianteiros são beneficiados pelo bom vão das portas, enquanto nas portas traseiras é preciso fazer um pequeno contorcionismo. O porta-malas comporta 290 litros, condizente com o segmento. Nota 7.
Acabamento – Apesar do estilo moderninho, o interior do Uno Attractive 1.4 segue a receita da simplicidade extrema do segmento de compactos. Os pequenos quadradinhos usados nas texturas do painel emprestam um visual estiloso e agradam ao toque. Os comandos do ar aparentam má qualidade. Encaixes e fechamentos são precisos na maior parte das vezes, mas há sinais de rebarbas nas vedações das janelas e em algumas partes dos painéis das portas. Nota 7.
Design – É a grande “bola dentro” do novo Uno. O conceito Round Square, implementado no novo Uno, foge da previsibilidade dos compactos com um estilo bastante quadrado e de traços bem definidos com partes abauladas e arredondadas. Com isso, o modelo conseguiu um conjunto moderno e harmônico. Nota 8.
Custo/benefício – Junto com o design, é o maior “appeal” do Uno. A versão Attractive parte dos R$ 31.360 com uma lista bastante enxuta de itens de série. Completo, chega a exorbitantes R$ 45.668. A versão bate diretamente em equipamentos com o Gol 1.6, mas consegue ser R$ 3 mil mais barata. Nota 8.
Total - O novo Fiat Uno Attractive 1.4 Fire Evo somou 71 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Além das aparências
O novo Fiat Uno chegou com uma proposta bem moderninha para o pragmático segmento de compactos. Mas apesar da casca estilosa, o carrinho feito em Betim, Minas Gerais, segue a lógica dos carros do chamado “mercado de entrada”. Desempenho competente para a cidade, acabamento simples e lista de equipamentos enxuta é o tripé básico da nova geração do hatch da marca italiana.
O motor de 88 cv com 100% de etanol no tanque é uma prova disso. Com um câmbio bem escalonado, com relações curtas principalmente da segunda para a terceira marchas, o Uno tem arrancadas apenas satisfatórias. Sai da inércia e alcança os 100 km/h em 11,7 segundos. O propulsor 1.4 Fire Evo só surpreende mesmo na hora do carrinho encarar trechos de subida ou ultrapassagens. Isso porque aos 2.500 giros o motor enche rápido e otimiza as retomadas do compacto.
Mas passar dos 120 km/h é tarefa que exige paciência do motorista. Com o pé fundo, o Uno Attractive já começa a deixar a desejar pelo isolamento acústico. Barulhos do motor e dos pneus entram sem piedade no habitáculo e quanto maior a velocidade, maior a “sinfonia”. Além disso, a partir dos 120 km/h, uma ligeira sensação de flutuação lembra ao motorista que respeitar os limites de velocidade talvez seja uma boa ideia.
Nas curvas, em velocidades pouco civilizadas, o modelo também faz menção de desgarrar. O que reforça ainda mais que a proposta do Uno é ser um carro para a cidade ou para viagens feitas de forma mais pacata, e não para uma condução muito arrojada. Nas freadas bruscas e nas arrancadas, porém, o modelo surpreende positivamente, sem levantar em demasia a frente ou mergulhar demais a dianteira.
O Uno também cativa pela ergonomia e pelo espaço. A posição elevada de dirigir permite ao condutor ter uma boa noção do que ocorre fora do veículo. Além disso, o modelo facilita a vida do motorista com uma área envidraçada generosa, direção suave e precisa e com grande parte dos comandos ao alcance dos olhos e das mãos. Apesar de não ter um espaço lateral tão generoso como a antiga geração, o novo Uno oferece um vão para as pernas e cabeças raro de encontrar nos compactos. Bem adequado aos jovens, normalmente de estatura mais elevada que seus pais.