Pelas beiradas
Renault repagina radicalmente o Clio Sedã e cria o Symbol para ampliar a participação de mercado
AutoPress
Texto: Eduardo Rocha
Fotos: Eduardo Rocha/Carta Z Notícias
Na ponta do lápis, melhor que uma ideia nova é uma ideia velha que funciona. Foi nessa lógica que a Renault decidiu criar o sedã compacto Symbol. O modelo foi projetado para usar a plataforma do Clio sedã e o substitui na linha de montagem de Santa Isabel, na província argentina de Córdoba. A estratégia é simples: sai um modelo de vendas pífias e entra um aparentemente novo, com maiores possibilidades comerciais. O Clio sedã vinha cumprindo uma triste rotina de emplacar pouco mais de 350 unidades mensais. Do Symbol, a montadora francesa espera, pelo menos, 700 vendas por mês. Não é muito. Mas foi com a tática de ampliar o leque de produtos e participar de vários segmentos, mesmo sem nenhum "best-seller", que a Renault pulou de 47 mil carros vendidos em 2005 para 115 mil em 2008. Sempre com a política do "de grão em grão".
A principal vantagem para a montadora nessa espécie de reciclagem industrial, em que uma velha arquitetura é aproveitada, é a brutal redução nos custos de produção. O sistema dispensa renovação de plataforma, de suspensão e boa parte do ferramental de produção. A desvantagem é que o carro mantém o projeto antigo, sem as evoluções de engenharia – no caso específico, da última década inteira. Deve-se considerar, porém, que historicamente no Brasil defasagens tecnológicas não se refletem diretamente nas vendas. O consumidor brasileiro é muito pouco exigente, nada racional e costuma comprar carros de olho apenas no preço, no design e em algumas outras perfumarias. O bom porte do Symbol – ganhou 7 cm no comprimento e 2 cm na altura em relação do Clio sedã – revela a intenção da Renault de explorar esse aspecto. A ideia é colocá-lo para brigar entre o Logan e o Mégane, para um embate com Ford Fiesta, Volkswagen Voyage e Peugeot 207 Passion. Coincidentemente, tanto Voyage quanto Passion são também modelos "reciclados".
A Renault definiu o Symbol como sedã compacto premium. Evidente exagero. O sedã não apresenta nem materiais, nem acabamento, nem recursos que permitam essa definição. Mas a indústria tem recorrido à já desgastada classificação "premium" apenas para identificar modelos que não vêm de fábrica completamente depauperados, como nos sedãs de entrada. No caso do Symbol, ele recebe sempre o motor 1.6 16V e tem ar-condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos, alarme e airbag duplo nas duas versões. O preço inicial é de R$ 41.190, na Expression sem opcionais, e vai até R$ 46.840, para a Privilège com ABS e pintura metálica. Estes valores podem até deixar o Symbol competitivo diante dos rivais, mas dificilmente vão se tornar a principal razão para uma compra.
Para a Renault, a motivação seria a impressão que o Symbol transmite de ser maior do que é. Alguns elementos de design, inclusive, remetem propositalmente a modelos maiores. Caso do friso cromado na parte frontal do capô, que lembra o usado pelo médio-grande Laguna – carro pouquíssimo vendido no Brasil, mas como o Symbol é produzido também na Turquia, essa associação funciona bastante no mercado da Europa Oriental, onde é vendido com o nome de Renault Thalia. Lanternas traseiras e tampa do porta-malas têm cortes limpos, quase geométricos, e fazem referência ao médio Mégane.
A lateral é a parte que mais reflete as limitações impostas aos designers pela reutilização da plataforma antiga. Apesar de sutis mudanças nas molduras das janelas, as portas mantêm o recorte do velho sedã. A linha do teto também tem um caimento precipitado. A coluna traseira foi bastante alongada para "encompridar" visualmente o carro e esconder a famigerada "corcundinha" do Clio. No interior, por outro lado, não há truque visual que dê jeito. O habitáculo é bem estreito e três adultos atrás provocam aperto generalizado. Já as boas medidas no sentido longitudinal geram um espaço razoável para as pernas, mesmo de pessoas mais altas.
A qualidade dos revestimentos, porém, confirma que o Symbol não é um premium. Os plásticos e tecidos da forração são da mesma família dos utilizados no velho Clio. Nem os apliques de plástico aluminizado minimizam o aspecto um meio antiguinho do interior. Ainda assim, o conjunto é mais atraente que no Clio sedã. E exatamente por esse verniz de novidade, são grandes as possibilidades de o Symbol cumprir com facilidade a tarefa de superar as fracas vendas do antecessor.
Instantâneas
# O mix de vendas projetado pela Renault para o Symbol é de 50% de cada uma das versões.
# A mais que a versão Expression, a Privilège tem: controle eletrônico do ar-condicionado, bancos com veludo no lugar de tecido, computador de bordo, faróis de neblina, termômetro externo, maçanetas aluminizadas, manopla do câmbio e volante em couro, retrovisor com ajuste elétrico, rádio/CD player, vidros elétricos traseiros e rodas de liga leve aro 15. A diferença de preço entre as duas versões é de R$ 3.300.
# O ABS é opcional nas duas configurações e custa R$ 1.500.
# A Renault calcula que tem muito campo para crescimento no Brasil pela relação carro/habitantes. No Brasil, ela é de 150 veículos para cada 1.000 habitantes. Na França, é de 600/1.000.
# Para crescer as vendas no Brasil, a Renault conta com os 180 mil consumidores que compraram seu veículos desde 2006 e frequentam as concessionárias por causa da garantia de três anos.
# A garantia do Symbol também é de três anos, sem limite de quilometragem.
# O Symbol tem oito cores disponíveis. As sólidas branco e vermelho e as metálicas bege, preto, prata, vermelho, azul e cinza.
Ficha Técnica
Renault Symbol Privilège 1.6 16V flex
Motor: A gasolina e álcool, dianteiro, transversal, 1.598 cm³, com quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo no cabeçote. Acelerador eletrônico e injeção eletrônica multiponto sequencial.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 110 cv com gasolina e 115 cv com álcool a 5.750 rpm.
Torque máximo: 15,2 kgfm com gasolina e 16 kgfm com álcool a 3.750 rpm.
Diâmetro e curso: 79,5 mm X 80,5 mm. Taxa de compressão: 10.0:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com triângulos inferiores, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Traseira a semi-independente do tipo eixo de torção, com travessa deformável, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira. Oferece ABS com EBD como opcional.
Carroceria: Sedã compacto em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. Dimensões: 4,26 metros de comprimento, 1,67 m de largura, 1,44 m de altura e 2,47 m de entre-eixos. Oferece airbags duplos frontais de série.
Peso: 1.045 kg.
Capacidade do porta-malas: 506 litros.
Tanque de combustível: 50 litros.
Ponto a ponto
Desempenho - Apesar do bom porte, o Symbol não é um veículo muito pesado – tem apenas 1.045 kg. Daí os 115 cv do propulsor 1.6 16V gerarem uma relação peso/potência de 9 kg/cv, mais que suficientes para empurrar o sedã. Mas o desempenho do Symbol não demonstra muita harmonia. Segundo a Renault, o zero a 100 km/h é feito em 10,1 segundos e a máxima é de 187 km/h. Mas como um típico multiválvulas de projeto mais simples - sem variador de tempo de abertura de válvulas, por exemplo -, apresenta uma forte inércia abaixo de 2 mil giros. O torque máximo, de 16 kgfm com álcool, só aparece aos 3.750 giros. E é só aí que o Symbol acorda. Essa característica faz o sedã ter um desempenho excessivamente comportado na cidade e bem agressivo na estrada, em altos giros. Mesmo assim, as ultrapassagens exigem o uso do câmbio. Nota 7.
Estabilidade - A plataforma e a suspensão do Symbol são antigas e é na estabilidade que o peso da idade fica evidente. Em curvas mais fechadas, ele torce mais que o recomendável. Nas retas, em velocidades a partir de 100 km/h, a direção passa a exigir uma série de pequenas correções. Além disso, os pneus "copiam" demais a estrada. Acima de 130 km/h, a frente fica excessivamente leve e arisca. Nesse ponto, a sensação é que o Symbol perde a pressão aerodinâmica e um volume muito grande de ar passa sob o carro. Nota 6.
Interatividade - Botões, hastes e mostradores, a não ser por pequenas alterações visuais, são idênticos aos usados pelo Clio. Por isso mesmo, há uma certa familiaridade e têm localização e acionamento racionais – os botões dos vidros dianteiros, por exemplo, ficam na porta. A exceção fica com o rádio/CD, de série na versão Privilège, que tem comandos muito ruins, mas a situação é minimizada pelo comando-satélite na coluna do volante. Aliás, esse comando do som é o único pequeno requinte do Symbol. Não há recursos já comuns no segmento, como abertura interna para a tampa do porta-malas, sensor de estacionamento ou mesmo os espelhos com tampa no parassol. Nota 7.
Consumo - A boa fama de econômico do motor hi-flex se confirmou no test-drive. Apesar de ter sido abusado, o computador de bordo do Symbol acusou a boa média de 8,2 km/l de álcool. Nota 7.
Conforto - O Symbol tem bom espaço longitudinal para pernas, mas é muito estreito na altura dos ombros. Atrás carrega, com boa vontade, dois adultos e uma criança, desde que em um trajeto curto. A suspensão, bem mole, absorve os trancos causados pelas irregularidades do piso. Os bancos são bem macios, mas pouco ergonômicos. Não seguram bem o corpo nas curvas e mesmo com o ajuste de altura do assento do motorista, a sensação é de estar afundado. O isolamento acústico funciona até 90, 100 km/h. A partir daí, os ruídos aerodinâmicos se fazem presentes. Nota 6.
Tecnologia - O fato de ter uma arquitetura antiga – suspensão e estrutura – pesa bastante contra o comportamento dinâmico do Symbol. Nem mesmo o farol de dupla parábola existente no modelo-base foi mantido – agora é de parábola simples. Os recursos eletrônicos se limitam a computador de bordo, airbag e ABS, que também não representam nenhuma novidade – na época do lançamento do Clio, em 1999, já estavam presentes. É muito pouco para um carro que pretende ser visto como modelo premium. Nota 6.
Habitabilidade - A Renault criou uma solução para o estepe que deveria ser repensada. Como a base é do modelo antigo, a localização se manteve. Só que o carro inteiro foi alterado. O sobressalente acabou deitado no fundo do porta-malas, preso por um elástico, próximo ao encosto do banco traseiro, sob uma cobertura de carpete rígida, difícil de manipular. Por outro lado, as portas e acessos, iguais aos do Clio sedã, são bem razoáveis. E, como o antecessor, o Symbol tem um bom porta-malas, de 506 litros. Nota 7.
Acabamento - Nada nos materiais de acabamento justifica a idéia da Renault em classificar o Symbol com premium. Há um excesso de plásticos e veludo, tecido que vem caindo em desuso na indústria já há algum tempo. O interior, apesar de redesenhado, tem um aspecto de antigo. Há muita lata aparente por dentro do porta-malas e falta revestimento no capô e na tampa traseira. Nota 6.
Design - Apesar de não ser um exemplo de modernidade, é bem mais atraente que o do velho Clio. O uso de linhas de modelos superiores, como o Laguna na frente e o Mégane na traseira, surte o efeito desejado, de fazer o Symbol parecer maior do que é. E desenho é o principal argumento da Renault para dobrar as vendas no segmento de sedãs compactos. Nota 8.
Custo/Benefício - A classificação do Symbol como premium é uma forma de a Renault indicar que o preço não é o grande atrativo do sedã. Para um carro de iniciais R$ 41.190, vir com airbag, ar, direção e vidros dianteiros elétricos não o transforma numa pechincha. É apenas o preço superior praticado no mercado. Nota 6.
Total - O Renault Symbol somou 66 pontos em 100 possíveis.
Primeiras impressões - Dupla personalidade
Curitiba/Paraná – O Symbol tem dois comportamentos bem distintos. Em baixos giros, num regime típico de trânsito urbano, ele se mostra excessivamente comportado, com pouco ímpeto. Na estrada, passa um pouco da medida, de tão voraz. Esse desequilíbrio acontece em função das características do propulsor 1.6 16V hi-flex, que tem boa potência, mas o torque só se faz sentir após os 3.500 rpm.
O novo sedã da Renault – na verdade, uma repaginação do velho Clio sedã – tem outras contradições. Apesar de ter crescido em 7 cm e ter um porte imponente para a categoria, o espaço interno não melhorou. Transversalmente, inclusive, é bem precário. Atrás, dois adultos viajam bem, com bom espaço para as pernas e a cabeça. Um terceiro passageiro, mesmo sendo uma criança, cria um aperto geral.
Um exame mais minucioso não colabora na imagem do Symbol. A Renault manteve apenas dois apoios de cabeça nos bancos traseiros e o assento central apenas com cinto subabdominal. Isso num modelo que se arroga premium. O porta-malas tem um revestimento de carpete rígido que atrapalha bastante o acesso ao estepe, instalado bem no fundo do compartimento. O sistema de fixação do sobressalente à carroceria, inclusive, é bastante tosco, através de uma tira elástica. A grande quantidade de lataria aparente nas molduras das janelas e no interior do porta-malas também evidenciam uma certa economia no acabamento. Caso também da falta de isolamento acústico na tampa do motor.
Mas há sutis melhoras em relação ao Clio, principalmente na habitabilidade. O interior recebeu alguns porta-objetos no console central, inexistentes no antecessor. Os porta-mapas das portas também aumentaram a capacidade, mas ainda não cabe, por exemplo, uma garrafa de água. O posicionamento dos comandos dos vidros dianteiros, no apoio de braços da porta, também melhorou. Por outro lado, o interior manteve os mesmos bancos excessivamente almofadados. Apesar de deixarem o corpo afundar, não dão suporte nas curvas.
O maior ganho do Symbol em relação ao Clio, porém, é mesmo o design. O visual externo, bem conservador, transmite a impressão de um carro de bom tamanho e requintado. O conjunto ótico grande e a entrada de ar horizontalizada sob o para-choques cria a sensação de ser um carro largo. Os cromados no capô e na tampa do porta-malas dão a ideia de luxo.
Essa boa imagem, porém, não resiste a uma visita ao interior. Há uma excesso de plástico nos painéis. O revestimento em veludo parece mais adequado a um modelo da década passada. De qualquer forma, o novo sedã compacto é capaz de vender 700 unidades mensais, o dobro do que o Clio sedã vendia em média, tarefa designada pela marca.