CITROËN C4 PICASSO

 
 

Quando menos é mais
Versão mais curta do C4 Picasso faz as vendas da linha de minivans médias da Citroën dobrarem



AutoPress
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Pedro Paulo Figueiredo/Carta Z Notícias

Para o Brasil, a Citroën adota uma lógica bem definida – e um tanto elitista, por assim dizer. Além de não vender os chamados carros populares, os compactos 1.0, sempre que lança um novo produto no país, começa pelas versões com motores mais potentes e caras. Foi assim com a sua nova linha de monovolumes médios importada da Espanha. O C4 Picasso, versão menor e mais barata da gama, chegou em fevereiro passado, quase um ano depois de a marca começar a importar para cá o Grand C4 Picasso, modelo mais equipado e com sete lugares. Mesma estratégia usada pelo fabricante francês no lançamento de modelos como C3, Xsara Picasso e C4 Pallas. Uma forma de a Citroën reforçar a imagem de marca requintada que construiu no país e agregar vendas. No C4, essa lógica dá certo.
A minivan menor vendeu 358 unidades em março. É verdade que, inevitavelmente, roubou vendas da configuração Grand, que somou 154 unidades no mesmo mês. Mas, de qualquer forma, o C4 Picasso mordeu mercado de outros modelos. Afinal, o Grand C4 Picasso registrava média de 280 unidades mensais e agora as duas versões somaram 512 unidades apenas em março. Juntas, já ultrapassaram a veterana Scénic e encostam até mesmo na Xsara Picasso – que custam entre R$ 49 mil e R$ 70 mil, e no mesmo mês tiveram 363 e 426 vendas, respectivamente. Só perdem para a também experiente Chevrolet Zafira, que emplacou 1.014 exemplares em março. O maior mérito das importadas da Citroën está justamente na diferença de preço para as rivais. O C4 Picasso começa em R$ 81.800 e chega a R$ 83.300 com o único opcional, o ar-condicionado quadrizone. O Grand C4 custa a partir de R$ 89.500.
Com isso, a Citroën deixou o modelo maior para rivalizar com a também importada Renault Grand Scénic. E posicionou a também veterana linha Xsara Picasso, fabricada em Porto Real, para duelar com monovolumes brasileiros – além de Scénic e Zafira, a recém-chegada Nissan Livina. Cabe à C4 Picasso se posicionar em uma faixa intermediária, carente de novidades no que diz respeito a carros para família. Por isso, acaba enfrentando modelos médios topo de linha, que têm preços entre R$ 75 mil e R$ 85 mil, como Peugeot 307 SW, Renault Mégane GT, Honda Civic, Toyota Corolla, Ford Fusion, Volkswagen Jetta, Hyundai Tucson e Kia Sportage.
Para tal, o monovolume vem com uma lista de equipamentos relativamente recheada. Na segurança, destaque para os nove airbags: duplo frontal, laterais dianteiros, do tipo cortina na frente e atrás e um para os joelhos do motorista. Além disso, o modelo conta com controles eletrônicos de estabilidade e de tração, freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência, ajuda para partida com o veículo em inclinação, cintos dianteiros com pré-tensionadores duplos e faróis com regulagem elétrica de altura. No conforto, previsíveis ar automático dual zone, direção hidráulica, trio elétrico, computador, controle de cruzeiro, rádio/CD/MP3, entre outros.
O motor é o conhecido 2.0 16V de 143 cv a 6 mil rpm e 21 kgfm a 4 mil giros, o mesmo que equipa o Grand C4 Picasso, além de versões das linhas C5 e C4 Pallas e hatch. O propulsor trabalha com um câmbio automático de quatro velocidades, controlado através de uma haste na parte superior da coluna de direção. Já o freio de estacionamento é acionado através de um botão e o volante segue o mesmo estilo da linha C4, com cubo fixo e diversos comandos, entre eles do ar, do controle de cruzeiro e do sistema de som. Há ainda pequenos mimos como um carrinho destacável no porta-malas e persianas nos vidros traseiros.
O visual, por sua vez, sempre foi o chamariz da linha Picasso. Apesar de não ser tão ousado como o Xsara Picasso foi na época do seu lançamento, em 1998, o C4 Picasso tem um estilo marcante. Na frente, para-brisa que se estende até quase a coluna central, capô abaulado, generosos faróis angulosos e a barra cromada com dois filetes que insinuam o "double chevron" da logomarca. Nas laterais, linha de cintura em cunha e com um degrau e caimento do teto acentuado. A traseira é mais arrojada que a do Grand, com vidro inclinado e grandes lanternas horizontalizadas que invadem as laterais. Um visual que tenta se livrar do jeito careta das minivans e que serve para reforçar a imagem de requinte que a Citroën faz questão de ter no mercado brasileiro.
Instantâneas
# O Citroën C4 Picasso foi lançado mundialmente em 2007.
# O modelo é fabricado na planta da PSA Peugeot Citroën na Espanha e usa a mesma plataforma da linha C4 feita na Argentina.
# A outra minivan média da marca francesa, o Xsara Picasso, continua sendo produzido tanto na Europa quanto no Brasil, na fábrica de Porto Real, no interior do Estado do Rio de Janeiro.
# A linha Picasso ganhará um terceiro exemplar no Brasil no ano que vem, quando começa a ser produzida em Porto Real a minivan compacta C3 Picasso, feita sobre a plataforma do hatch C3.
# Assim como o restante da linha C4, o C4 Picasso oferece o perfumador de ambiente, uma linha de frascos com odores diversos que é colocada em um espaço no painel e espalha um perfume pela saída do ar-condicionado.
# Além do carrinho móvel, o porta-malas do C4 Picasso também oferece uma lanterna recarregável.
Ficha Técnica - Citroën C4 Picasso 2.0 16V
Motor: A gasolina, 1.997 cm³, dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e duplo comando no cabeçote. Injeção de combustível multiponto sequencial, acelerador eletrônico e sistema de distribuição de regulagens variáveis na câmara de combustão.
Transmissão: Automática com quatro marchas à frente e uma a ré com modo manual sequencial através de borboletas no volante. Tração dianteira. Controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 143 cv a 6 mil rpm.
Torque máximo: 20,4 kgfm a 4 mil rpm.
Diâmetro e Curso: 85,0 mm X 88,0 mm. Taxa de compressão: 10.8:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços inferiores triangulares, amortecedores hidráulicos, molas helicoidais e barra estabilizadora. Traseira com travessa deformável, amortecedores hidráulicos, molas helicoidais e barra estabilizadora. Controle eletrônico de estabilidade.
Freios: A discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira. ABS com EBD e assistente de frenagem de emergência.
Carroceria: Monovolume em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. Comprimento de 4,47 metros, com 1,83 metro de largura e 1,68 metro de altura. Entre-eixos de 2,73 metros. Oferece duplos airbags frontais, laterais e do tipo cortina e um para os joelhos do motorista.
Peso: 1.560 kg em ordem de marcha, com 529 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 490 litros/1.775 litros com os bancos traseiros rebatidos e recuados.
Tanque de Combustível: 60 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – O Citroën C4 Picasso não esconde que é um carro para família. Até na desenvoltura do motor. Os 143 cv do conhecido propulsor 2.0 multiválvulas da PSA Peugeot Citroën garantem uma performance comportada e condizente com a proposta da minivan. As arrancadas são apenas eficientes e as retomadas são prejudicadas pelo torque tardio, só liberado plenamente em 4 mil giros, e pelo câmbio de quatro velocidades. Os delays e buracos entre as marchas são constantes e acabam por anestesiar as reações do monovolume em subidas e ultrapassagens. A máxima conseguida foi de 181 km/h. Nota 7.
Estabilidade – Controle eletrônico de estabilidade e tração sempre são bem-vindos. Ainda mais em uma minivan alta como o C4 Picasso. Os dispositivos seguram bem o monovolume nas curvas e a carroceria torce dentro da normalidade nessas situações. Em nenhum momento, independentemente da agressividade de abordagem na curva, perde-se a sensação de controle sobre o carro. Nas retas, em velocidades altas, a comunicação entre volante e rodas só passa certa imprecisão muito próximo da máxima de 181 km/h. A suspensão é bem calibrada e o modelo não empina em demasia nas arrancadas nem embica muito nas freadas. Ainda nas paradas bruscas, o ABS e EBD permitem que o motorista consiga manter o controle do veículo. Nota 9.
Interatividade – É difícil não se sentir à vontade dentro da minivan média. O modelo oferece uma ergonomia eficiente, com diversos comandos ao alcance do motorista. Uma característica beneficiada ainda pelo volante com cubo fixo e diversos comandos para ar, som e controle de cruzeiro. Só destoa mesmo a buzina, que é acionada por um botão em curva, na borda inferior do cubo, numa posição meio desajeitada. A dirigibilidade é outro aspecto elogiável. Direção leve e precisa, bancos e volante com ajustes para encontrar uma posição elevada e boa para dirigir e ótima visibilidade graças à ampla área envidraçada. De qualquer forma, o modelo merecia um sensor de obstáculos devido às dimensões volumosas da carroceria e o quadro de instrumentos ao centro do painel sempre exige desvios de olhares além do recomendável. Nota 8.
Consumo – O modelo anotou a média de 6,6 km/l com gasolina em uso 2/3 na cidade e o restante na estrada. Resultado direto do excesso de peso que o motor é obrigado a locomover. Nota 6.
Conforto – Espaço é o que não falta dentro do C4 Picasso. Todos os ocupantes dispõem de ótimo vão para pernas, ombros e cabeças. O isolamento acústico beira a perfeição. A suspensão, porém, tem excessiva rigidez para os padrões brasileiros e acaba por não filtrar de forma eficiente os buracos na pista. Nota 9.
Tecnologia – O modelo compartilha a plataforma do Peugeot 307, que tem oito anos, e carrega um motor veterano e um câmbio automático pouco moderno. Em compensação, chega ao Brasil com bom recheio de itens de segurança: nove airbags, freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência e controles de estabilidade e de tração. A gama de equipamentos de conforto está condizente com o preço. Nota 7.
Habitabilidade – Os acessos ao monovolume são facilitados pelo amplo vão das portas e pela boa altura do carro. O porta-malas comporta bons 490 litros – até a altura do limite dos bancos – e ainda conta com um simpático carrinho multiuso e lanterna. No habitáculo, há mesinhas do tipo avião para os passageiros de trás e uma infinidade de porta-objetos, com destaque para os dois porta-trecos nas extremidades do painel superior. Nota 9.
Acabamento – Os materiais usados nas forrações e painéis da minivan da Citroën aparentam qualidade e cuidado. Os fechamentos e encaixes são precisos e não há sinais de rebarbas. Nota 8.
Design – A Citroën gosta de ousar no visual dos seus carros e o nome do pintor espanhol não poderia resultar em um modelo muito comportado. Mesmo não sendo tão “inovador” quanto o Xsara Picasso, a nova minivan tem estilo arrojado, com abuso de traços angulosos e bem definidos que fogem do convencional. E uma traseira mais estilosa que a da versão Grand C4. Internamente, a decoração do habitáculo também tenta seguir a lógica da diferenciação. Nota 9.
Custo/benefício – O C4 Picasso começa em R$ 81.800 com uma boa lista de itens de segurança e de conforto. Acaba por atuar em uma faixa de preço que o faz brigar com versões top e automáticas de peruas, sedãs e até crossovers médios do mercado. Nota 6.
Total – O Citroën C4 Picasso somou 78 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - A família vai bem
O primeiro aspecto que chama a atenção no C4 Picasso, depois de se deparar com as linhas ousadas do modelo, é o espaço interno. A minivan média da Citroën oferece bancos que parecem abraçar cada um dos cinco ocupantes, além de oferecer espaço invejável para pernas e cabeças e toda a sorte de porta-objetos. Encontrar a posição certa de dirigir é simples, graças aos ajustes da coluna de direção e do banco. Isso sem falar na ergonomia dos comandos, todos intuitivos e de fácil acesso, e pelo volante com cubo fixo com uma diversidade de botões do sistema de som, ar e controle de cruzeiro. Basta virar a chave, engatar o câmbio em drive – através da estranha e aparentemente frágil haste da transmissão, acima da coluna de direção – e acelerar. Não é preciso nem apertar o botão para destravar o freio de estacionamento elétrico: ele se desarma sozinho quando o carro começa a se mover.
A partir daí, percebe-se que a vocação familiar do C4 Picasso se estende ao conjunto mecânico. O motor 2.0 16V é comportado demais. Por outro lado, não contradiz a proposta da minivan. As arrancadas são apenas satisfatórias e o zero a 100 km/h foi obtido em 11 segundos cravados. Nas retomadas é preciso um pouco mais de paciência. O câmbio automático de quatro velocidades não tem um funcionamento harmônico com o motor. Tende a ficar indeciso em baixos giros, o que provoca delays e buracos, principalmente entre a segunda e terceira marchas. O que requer atenção e paciência na hora de encarar um trecho de serra ou de fazer ultrapassagens. O 60 km/h a 100 km/h em drive consumiu 10,3 segundos.
É preciso um pouco de paciência e pé no fundo também para fazer a minivan alcançar os 181 km/h de máxima. Em altas velocidades, aliás, o monovolume impressiona pelo belo comportamento dinâmico. A comunicação entre rodas e volante se mostra correta até bem próximo da máxima e quase não há sensação de flutuação. Nas curvas, a carroceria torce um pouco, mas o modelo não faz qualquer menção de sair de frente. Nas freadas bruscas, a mesma postura exemplar. A frente não embica e o modelo se mantém na trajetória. Mas é bom salientar que tudo isso é amparado por uma parafernália tecnológica. O C4 Picasso tem controles de estabilidade e de tração e freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência.
No cotidiano das esburacadas ruas brasileiras, o modelo tende a perder alguns pontos no conforto. A suspensão rígida, projetada para tapetes europeus, sofre nos terrenos irregulares das grandes cidades daqui. Ou seja, não absorve bem os desníveis e os reflete sem piedade dentro do habitáculo, onde os passageiros de trás são os que mais ficam incomodados com os solavancos. Outro ponto a desejar é o consumo. O modelo anotou a média de 6,6 km/l com aplicação 2/3 urbana e 1/3 rodoviária. Mesmo em se tratando de um carro com 1,5 tonelada e câmbio automático, é um pouco demais.



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