Avec elegance
C6 esbanja sofisticação para ser vitrine de tecnologia e requinte para a francesa Citroën
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Existem automóveis cuja principal função está longe de ser galgar números de mercado. E um caso emblemático é o sedã grande francês Citroën C6, que custa exatos R$ 228.375. Ele vendeu apenas 24 unidades no Brasil em todo 2008 e a “crise” não tem nada a ver com isso. A proposta do modelo é mesmo provar a capacidade construtiva do fabricante. Ou seja, mostrar que a marca do “double chevron” consegue fazer carros com extremo requinte e tecnologia embarcada. E para melhorar ainda mais a imagem do modelo, o atual primeiro-ministro francês, Nicolas Sarcosi, adotou o C6 como veículo oficial. Para alcançar este status, o top da marca oferece conforto e segurança maximizados, conjunto mecânico moderno e design que foge do lugar-comum dos sedãs de luxo. Além do tom exclusivista explicitado pelo preço e pelo fato de o modelo só ser vendido sob encomenda e em revendas de apenas três cidades do país: São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis.
Para início de conversa, o C6 tem o maior jeitão de cupê. O capô alongado e a traseira curta com inclinação acentuada das colunas traseiras deixam essa “vontade” em evidência. Nas ousadias visuais típicas da Citroën, o modelo abusa das linhas fluidas. Na frente, o conjunto ótico tem cortes angulosos e lembram uma asa de ave. Os faróis são ligados pelas tradicionais barras horizontais cromadas duplas que, ao centro, formam o duplo circunflexo – referência à logomarca da montadora. O capô abaulado tem poucas saliências e o spoiler dianteiro abusa dos cromados, que se apresentam na forma de frisos duplos na entrada de ar e nas molduras dos faróis de neblina redondos.
Nas laterais, linhas predominantemente lisas com a curva do teto acentuada. A traseira, porém, é a parte mais ousada do sedã. As lanternas em forma de arco se sobressaem à carroceria e formam culotes. Isso reforça a aparência da tampa do porta-malas, bojuda, cuja parte superior invade o vidros de forma abaulada.
Por dentro, uma singular combinação de cenário futurista com detalhes clássicos. O acabamento em madeira se mescla com partes cromadas. O quadro de instrumentos, todo em display de cristal líquido, tem conta-giros analógico e velocímetro digital. Na parte superior central do console, outra tela de cristal líquido reúne diversas informações do modelo, enquanto abaixo há um emaranhado de botões para o sistema de som e do ar-condicionado. Os bancos têm revestimento em couro preto e o painel tem detalhes em raiz de nogueira em tons escuros.
Mas é no conjunto mecânico que o C6 mostra mais modernidade. O modelo conta com suspensão hidráulica com ajustes de altura automáticos e modo sport. Na frente, triângulos sobrepostos e na traseira, braços múltiplos. O motor 3.0 V6 gera 210 cv de potência a 6 mil rpm e torque máximo de 31,5 kgfm a 3.750 giros. A unidade de força trabalha com uma transmissão automática de seis velocidades seqüencial.
Na parte de segurança, uma lista condizente com o preço do veículo. O C6 conta com nove airbags, freios com ABS, EBD e assistência em emergências, controles de estabilidade e de tração, retrovisores interno e externos eletrocrômicos, faróis de xênon autodirecionais, travamento automático das portas, aerofólio ajustável de acordo com a velocidade, faróis e lanterna de neblina, sensores de obstáculos dianteiro e traseiros e sistema de monitoramento de pressão dos pneus.
No que diz respeito a conforto, a lista também é bem farta, como deveria ser. Ar automático duplo com saída independente para os assentos traseiros, direção hidráulica assistida, trio elétrico, retrovisores rebatíveis eletricamente, volante multifuncional, computador de bordo, alerta de mudança de faixa, controle de cruzeiro, sistema de som hi-fi com rádio/CD/MP3 e disqueteira para seis discos, bancos dianteiros com ajustes elétricos e aquecimento, porta-luvas refrigerado, sensores de luminosidade e de chuva, cortina no vidro traseiro, assentos traseiros com ajustes individuais, entre outros.
Como opcionais, o modelo só recebe regulagens elétricas dos bancos traseiros laterais e teto solar. Com o preço de R$ 228.375, o C6 acaba por ficar distante dos demais sedãs grandes do mercado e passa a competir com modelos médios de fabricantes tradicionai de luxos. Exemplos: o Mercedes-Benz C280 Avantgarde custa R$ 208 mil, o BMW 325i sai a R$ 214 mil e o Audi A4 3.6 V6 FSI tem preço de R$ 229 mil.
Instantâneas
# O Citroën C6 nasceu como conceito em 1999, apresentado no Salão de Genebra. A estreia oficial foi seis anos mais tarde, no mesmo motorshow.
# O sedã grande é produzido na planta da PSA Peugeot Citroën em Rennes, na França.
# O C6 usa uma versão alongada da plataforma 3 da PSA, usada pela linha C5.
# O sistema de escapamento do três volumes conta com silencioso bimodal ativo que, segundo a marca, contribui para o pouco ruído do motor.
# O C6 possui um sistema HUD – head-up display –, que projeta no para-brisa a velocidade do veículo.
# O display central do sedã tem regulagem de inclinação.
# Na Europa, o C6 também é vendido com motor turbo-diesel 2.7 V6 de 208 cv.
# No Brasil, o C6 é entregue de dois a três meses após a encomenda do cliente.
Ficha técnica - Citroën C6 Exclusive 3.0 V6
Motor: Gasolina, dianteiro, longitudinal, 2.946 cm³, seis cilindros em “V”, quatro válvulas por cilindro e comando duplo de válvulas no cabeçote. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio automático de seis velocidades à frente e uma a ré com opção de modo sequencial. Tração dianteira. Controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 210 cv a 6 mil rpm.
Torque máximo: 31,5 kgfm a 3.750 rpm.
Diâmetro e curso: 87,0 mm x 82,1 mm. Taxa de compressão: 10,9:1.
Suspensão: Dianteira hidropneumática com regulagem eletrônica, braços triangulares transversais sobrepostos, amortecedores variáveis e barra estabilizadora. Traseira hidropneumática com regulagem eletrônica, com braços múltiplos, amortecedores variáveis e barra estabilizadora. Controle eletrônico de estabilidade.
Freios: A discos ventilados na frente e discos sólidos atrás. ABS, EBD e assistente de emergência.
Carroceria: Sedã grande em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. 4,90 metros de comprimento, 1,86 m de largura, 1,46 m de altura e 2,90 m de entre-eixos. Tem nove airbags – frontais, laterais e do tipo cortina dianteiros, laterais traseiros e para os joelhos do motorista.
Peso: 1.834 kg em ordem de marcha, com 455 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 488 litros.
Tanque de combustível: 72 litros
Ponto a ponto
Desempenho – O motorzão V6 de 210 cv do C6 até impressiona pelos números. Mas, na prática, diante dos 1.834 kg do modelo, a unidade de força confere um desempenho apenas eficiente. As arrancadas e respostas ao pedal do acelerador são razoáveis e o zero a 100 km/h, por exemplo, foi obtido em 9,9 segundos. As retomadas também não empolgam. Apesar de o câmbio de seis velocidades trabalhar bem, sem delays ou buracos entre as marchas, o modelo demora a ganhar fôlego para ultrapassagens e trechos de subida. A máxima foi de 226 km/h. Nota 7.
Estabilidade – Apesar das dimensões generosas, o C6 tem agilidade e bastante maneabilidade. É claro que os controles de estabilidade e de tração ajudam a segurar o volumoso sedã nas curvas, tanto em alta como em baixa velocidades. A suspensão trabalha bem e impede mergulhos e empinos. Nas freadas bruscas, não há desvios de trajetória auxiliado pelos ABS, EBD e assistente de emergência dos freios. A suspensão pneumática também colabora para a boa estabilidade. Em altas velocidades, ela rebaixa o modelo e, mesmo acima de 200 km/h, a comunicação entre rodas e volante se mostra precisa. Nota 9.
Interatividade – As várias regulagens e memórias de volante e banco facilitam o encontro da posição ideal para dirigir. Além disso, o C6 conta com volante multifuncional e os principais comandos bastante intuitivos, o que beneficia a ergonomia. A visualização do quadro de instrumentos e do display no painel central são fáceis e a velocidade ainda pode ser projetada no para-brisa. A manobrabilidade só é prejudicada pela fraca visibilidade traseira, prejudicada pela tampa do porta-malas elevada e pelas largas colunas. Mas os sensores de obstáculos facilitam na hora de estacionar. Nota 8.
Consumo – O modelo testado anotou a média de 6,6 km/l com uso 2/3 na cidade. Nota 6.
Conforto – É um carro generoso por dentro. Há espaço de sobra para pernas e cabeças de todos os ocupantes. Atrás, três adultos viajam sem qualquer dificuldade ou aperto. A suspensão automática absorve razoavelmente a buraqueira das ruas brasileiras. Destaque mesmo para o isolamento acústico. Mesmo acima de 3.500 giros e em velocidades altas, não há qualquer percepção do barulho do motor ou de rodagens dentro do veículo. Nota 8.
Tecnologia – O C6 usa uma plataforma moderna, que data de 2000, adaptada do médio-grande C5. O modelo ainda conta com a ótima suspensão pneumática com ajustes eletrônicos, câmbio de seis velocidades e inúmeros itens de segurança, como ABS, nove airbags, controles de tração e de estabilidades, faróis de xênon autodirecionais, aerofólio ajustável, entre outros. Isso sem falar nos sensores de obstáculos, luminosidade e chuva, nos retrovisores eletrocrômicos, bancos com ajustes elétricos e sistema de som de alta definição. O motor V6 de 210 cv, porém, tem um fôlego apenas correto para as quase duas toneladas de carro. Nota 8.
Habitabilidade – O três volumes francês oferece uma boa quantidade de porta-objetos, com destaque para as tampas corrediças que cobrem os porta-trecos laterais. O porta-malas oferece bons 488 litros de espaço. Os acessos pelas portas da frente são facilitados pelas amplas – e pesadas – portas, mas atrás é preciso ter cuidado com o a cabeça por conta do caimento da terceira coluna. Nota 8.
Acabamento – O revestimento interno do C6 é praticamente impecável. O couro e os apliques de rádica utilizado nas forrações e no painel transmitem extremo requinte. Os fechamentos e encaixes das peças em todo o habitáculo são precisos. Nota 9.
Design – Não há como avistar um C6 na rua e ficar indiferente. O modelo tem linhas fluidas, marcantes e que fogem do lugar-comum, ainda mais quando se trata de um sedã grande. Além disso, o estilo ousado, o conjunto ótico agressivo e a grade frontal condizem com os modelos da marca em todo o mundo. Por dentro, os cromados e detalhes em madeira reforçam o ar de requinte. Nota 9.
Custo/benefício – A Citroën decidiu fazer do C6 no Brasil um carro de imagem. Por isso, traz apenas a versão top, com largas doses de tecnologia embarcada, requinte e conforto. Mas os mais de R$ 228 mil pedidos pelo modelo o tornam um sedã grande caro. E ainda fica com preço próximo ao de sedãs médios de marcas premium, como Mercedes, BMW e Audi, mais tradicionais no segmento de luxo. Nota 6.
Total – O Citroën C6 somou 78 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - É caro ser chique
O Citroën C6 impressiona. Tanto pela estética inusitada quanto pelos R$ 228 mil pedidos por ele. Mas quem se propõe a fazer este gasto não pode estar preocupado com economia. Deve estar mais interessado em exclusividade e status. E na competição árdua que o sedã grande tem de travar com modelos médios de marcas premium, o conforto e a tecnologia embarcada são o que mais chamam a atenção. Para começar, os bancos parecem abraçar o motorista e os demais ocupantes. Há espaço de sobra para pernas e cabeça dentro do modelo.
Para facilitar ainda mais a vida a bordo, regulagens elétricas do banco do motorista – com memórias – e do volante. Aliado a isso, uma ótima dose de conforto com ar com dual zone, direção hidráulica progressiva, um generoso display ao centro do painel com várias informações, volante multifuncional e sistema de som de alta definição. Mas é preciso virar a chave e verificar do que o C6 é capaz. E é neste momento que o sedã deixa um pouco a desejar.
Os 210 cv do motorzão V6 são apenas razoáveis para o trabalho de mover os mais de 1.800 kg do sedã. A relação peso/potência, de 8,6 kg/cv, seria bem aceitável em outras categorias. Para um sedã luxuoso, é a conta-do-chá. As arrancadas são pouco espertas e o modelo demora a engrenar. Foram necessários 9,9 segundos para sair da inércia e atingir 100 km/h. Nas retomadas, o mesmo ocorre. O torque máximo de 31,5 kgfm só disponível após os 3.750 giros proporciona retomadas pouco empolgantes. O motor demora a encher. Pelo menos, a transmissão automática de seis velocidades minimiza trancos e delays, mas em trechos de subida ou na hora de uma ultrapassagem o ideal mesmo é colocar o câmbio no modo sequencial.
A estabilidade do C6, por outro lado, é exemplar. Com inúmeros dispositivos eletrônicos que controlam estabilidade, tração e a frenagem, o sedã se porta muito bem na hora de entrar mais agressivo em uma curva ou de frear bruscamente. A suspensão pneumática também se mostra muito eficiente, com destaque o comportamento da traseira, com braços múltiplos. E mesmo próximo à máxima de 226 km/h não há sinais de flutuação da carroceria.
A suspensão poderia só filtrar melhor as irregularidades de ruas esburacadas, mas nada que afete diretamente o conforto proporcionado pelo C6. Além do ótimo espaço, o modelo oferece ajustes individuais dos bancos traseiros e uma lista de itens de conforto interessante. Isso sem falar no isolamento acústico do motor, praticamente perfeito mesmo em velocidades acima de 200 km/h. Na hora de abastecer, uma média que se espera de um veículo pesado, com motor V6 e câmbio automático: 6,6 km/l em uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada.