Efeito T
Com desempenho à altura de seu design, versão T-Jet cumpre a promessa esportiva da linha Punto
Auto Press
Texto: Julio Cabral
Fotos: Luiza Dantas/Carta Z Notícias
Versões mais esportivas funcionam quase sempre como chamariz de uma linha de automóveis. No caso do Fiat Punto T-Jet, lançado há dois meses pela marca italiana, a ideia é emprestar à linha de compactos uma aura de esportividade e desempenho, características que antes ficavam apenas na aparência. E o “carro de imagem” já influi no volume de vendas ao Punto que, de março para cá, voltou a emplacar médias superiores a 2 mil unidades mensais – volume que não atingia desde novembro do ano passado. Mas são números ainda distantes do “semestre glorioso” da indústria automotiva brasileira – de março a agosto de 2008 –, quando o Punto alcançava quase o dobro das vendas atuais.
Segundo dados do fabricante, o T-Jet responde atualmente por 7,5% das vendas do hatch, cerca de 150 modelos mensais. Um número restrito explicado pelo preço, que parte de altos R$ 59.500, e pelo atraso alegado pelo fabricante entre as encomendas do motor – importado da Itália – e a entrega na linha de montagem, em Betim.
O motor é, indiscutivelmente, a maior novidade do modelo. Trata-se do Fire 1.4 16V italiano, com turbocompressor de 1.0 bar de pressão e intercooler, capaz de atingir 152 cv de potência a 5.500 rpm e 21,1 kgfm de torque entre 2.250 rpm e 4.500 rpm. A “cavalaria” carrega cerca de 8 kg/cv, uma relação peso/potência bem favorável. Ao contrário das outras opções de propulsores da linha, o motor importado não é flex – roda apenas a gasolina. Além da usina de força, o modelo passou por outras alterações mecânicas. As suspensões receberam molas mais rígidas, além de barras estabilizadoras com maior diâmetro. E os freios também foram reforçados e agora contam com discos rígidos na traseira.
Em estilo, o hatch recebeu adereços inspirados no Abarth Grande Punto europeu. O conjunto de para-choque dianteiro é novo, com uma grande entrada de ar central e faróis de neblina com moldura triangular. Os faróis ganharam máscaras negras. A lateral recebeu, além das minissaias, molduras de plástico preto nos para-lamas. E a traseira conta com escapamento de saída dupla e proteções inferiores no para-choque, lanternas elevadas com bordas escurecidas, além de spoiler em duas cores, preto na parte superior e no tom da carroceria por baixo. As pistas mais visíveis da motorização são os adesivos T-Jet afixados nas portas dianteiras. As rodas aro 17 são exclusivas, com uma pintura mais escura e fosca, calçadas em pneus 205/50. Estão disponíveis quatro opções de cores: branco, amarelo, vermelho e preto, este último metálico.
O interior esbanja sinais de esportividade explícita. Como o painel de instrumentos, cujos velocímetros e conta-giros possuem escalas duplas – os intervalos entre os números indicados aparecem circunscritos, em menor tamanho. Uma grande faixa de plástico texturizado, com a mesma cor da carroceria, corta o painel de ponta a ponta. Os bancos dianteiros são esportivos, com abas laterais pronunciadas e a inscrição T-Jet nos encostos. As pedaleiras são em alumínio e o motorista conta com um apoio para repousar o pé esquerdo. Até os cintos de segurança adotaram uma cor diferente, em um tom de cinza.
A lista de equipamentos de série compreende ar-condicionado manual, direção hidráulica, vidros, travas e retrovisores elétricos, ajuste de altura do banco, volante multifuncional regulável em altura e profundidade, controle de cruzeiro, som com CD/MP3 com subwoofer e controles no volante, sistema Blue&Me de viva-voz, computador de bordo, revestimento em couro preto dos bancos – parcial –, do volante, da manopla do câmbio e dos puxadores das portas, estepe com roda de alumínio aro 17, entre outros. No capítulo da segurança, traz duplo airbag na dianteira e freios ABS com EBD de série.
Como itens opcionais, o Punto T-Jet oferece ar-condicionado automático, navegador GPS indicativo – sem mapas – integrado ao painel, kit com sensores de chuva, de luminosidade e espelho interno eletrocrômico, airbags laterais dianteiros e do tipo cortina e teto-solar elétrico duplo. Completo, o preço do modelo salta para R$ 71.461. Um “brinquedo” para poucos, mas sem concorrentes diretos.
Instantâneas
# O Grande Punto foi lançado na Europa no Salão de Frankfurt em 2005.
# O design foi criado pelo italiano Giorgetto Giugiaro, fundador da Italdesign. Daí a inscrição gravada em plaquetas fixadas nas portas traseiras do Punto.
# A versão esportiva do hatch é produzida na Europa desde 2007 pela Abarth, marca da Fiat responsável pelas versões esportivas do grupo. Lá o modelo esportivo está disponível na carroceria duas portas.
# O Abarth Grande Punto conta com uma opção Essesse – “SS” em italiano –, que eleva a potência do motor 1.4 16V turbo de 155 cv para 180 cv.
# Vendido entre 1994 e 1996, o Fiat Uno Turbo i.e. também utilizava motor 1.4 turbo com intercooler, mas com 8 válvulas. Era capaz de gerar 118 cv e 17,5 kgfm, o suficiente para levar o Uno de zero a 100 km/h em 9,2 segundos e à máxima de 195 km/h, segundo dados oficiais.
Ficha técnica - Punto T-Jet 1.4 16V
Motor: A gasolina, dianteiro, transversal, 1.368 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo de válvulas no cabeçote. Turbocompressor IHI com 1.0 bar de pressão, intercooler, injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual com cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 152 cv a 5.500 rpm.
Torque máximo: 21,1 kgfm entre 2.250 rpm e 4.500 rpm.
Diâmetro e curso: 72 mm x 84 mm. Taxa de compressão: 9,8:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços oscilantes em aço estampado fixados ao subchassi, com barra estabilizadora, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Traseira semi-independente, com travessa de torção com seção aberta, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra de torção. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente a sólidos atrás. Oferece ABS e EBD.
Carroceria: Hatch compacto em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. 4,03 metros de comprimento, 1,68 m de largura, 1,50 m de altura e 2,51 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal de série e airbags laterais e do tipo cortina como opcionais.
Peso: 1.230 kg em ordem de marcha, com 400 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 280 litros/1.030 litros com o banco traseiro rebatido.
Tanque de combustível: 60 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – O vigor do motor 1.4 16V turbo é sentido na primeira arrancada. Nas três primeiras marchas o giro não demora a subir e o turbo de 1,0 bar de pressão entra em cena após as 2 mil rpm. De zero a 100 km/h são necessários 8,9 segundos e, graças ao torque de 21,1 kgfm a partir de 2.250 rpm, a retomada de 60 a 100 km/h em quarta marcha é cumprida em 8,3 s. A velocidade máxima atingida foi de 200 km/h. Em uma condução normal, sente-se a falta de torque ao dobrar esquinas em terceira ou enfrentar subidas em baixas rotações. Nota 8.
Estabilidade – O endurecimento da suspensão se faz notar quando se passa por imperfeições. Embora não torça ao transpor lombadas, o modelo “quica” em buracos. Em compensação, o equilíbrio em curvas é garantido pelo conjunto, sem sustos nem saídas. As rodas aro 17 estão calçadas com pneus 205/50 que aderem ao asfalto. A direção é justa e transmite diretamente os movimentos do volante às rodas. Os freios a discos ventilados, com ABS e EBD de série, são potente e sensíveis. Paralisam o Punto em espaços curtos e de maneira equilibrada, embora a frente do carro embique. Nota 8.
Interatividade – O interior do Punto oferece soluções ergonômicas eficientes. O banco do motorista conta com ajuste de altura e junto ao volante de boa empunhadura, com regulagens de altura e de profundidade, propicia uma boa posição de dirigir. Embora o conjunto de câmbio e embreagem seja macio, trocar de marcha de maneira mais rápida é difícil, por causa do curso longo da alavanca. A visibilidade é prejudicada pelas largas colunas traseiras e pelo pequeno vidro posterior, problema que é um pouco atenuado pelo sensor de estacionamento. Os instrumentos do painel são de fácil leitura, com números grandes. Nota 7.
Consumo – O Punto T-Jet fez uma média de 7,5 km/l de gasolina, em um circuito 2/3 urbano e 1/3 estrada. Nota 6.
Conforto – A suspensão tem acerto adequadamente esportivo e deixa um pouco de lado o compromisso de oferecer conforto em pisos degradados. Os bancos dianteiros envolvem bem os ocupantes. Atrás, há espaço para dois ocupantes viajarem folgadamente, mas um passageiro central causa apertos. E o ronco encorpado do motor invade sem cerimônia o habitáculo. Uma característica tipicamente esportiva, mas que pode irritar um pouco quando se busca tranquilidade. Nota 6.
Tecnologia – O Punto utiliza uma versão simplificada da plataforma européia do Grande Punto, lançado em 2005. Relativamente moderna, mas que não traz suspensão traseira independente, por exemplo. O motor 1.4 16V turbo extrai expressivos 152 cv de potência, uma potência específica elevada, de 111 cv por litro. Entre os principais equipamentos de conforto, o hatch traz ar-condicionado, direção hidráulica, sistema viva-voz Blue&Me, computador de bordo e sistema de som com CD/MP3 e subwoofer. Na parte de segurança, o Punto conta com duplo airbag e freios ABS com EBD. Nota 8.
Habitabilidade – Os acessos ao interior são desimpedidos. O porta-malas comporta 280 litros, mas possui a “boca” muito alta, o que dificulta a entrada de volumes maiores. Da mesma forma o espaço interno é limitado para cinco ocupantes. Os cintos traseiros são de três pontos apenas para os passageiros laterais e o ocupante central ao menos conta com encosto de cabeça. Os porta-objetos são parcos. Além de um porta-copos duplo e um nicho no console central, os passageiros contam apenas com espaços nas portas dianteiras. Nota 6.
Acabamento – Como versão esportiva, o Punto T-Jet oferece uns toques mais caprichados. Entre eles uma faixa texturizada no tom da carroceria, que corta o painel de um extremo ao outro, e detalhes em couro pespontado nos bancos, volante, manopla do câmbio e puxadores das portas. Os encaixes e materiais utilizados são de boa qualidade, tal como a montagem, sem rebarbas flagrantes. Nota 8.
Design – É um dos pontos altos do modelo e permanece atual, mesmo passados quatro anos. Os apêndices aerodinâmicos, como o novo para-choque com formas agressivas, os alargadores pretos dos arcos das rodas e as minissaias laterais deram um aspecto mais agressivo ao conjunto. Nota 9.
Custo/Benefício – Por R$ 59.500, o Punto T-Jet se encontra sozinho como esportivo compacto de série, com um preço equiparado a alguns hatches médios. Para compensar, o modelo conta com uma boa lista de itens de série. Nota 7.
Total – O Fiat Punto T-Jet somou 73 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Assim é se lhe parece
Além do desenho, com toques mais extravagantes e esportivos, o Punto T-Jet se destaca pela sua força sob o capô. O pequeno motor italiano de 1.4 16V oferece 152 cv de potência a 5.500 rpm e bons 21,1 kgfm de torque entre 2.250 rpm e 4.500 rpm. Ao se pisar fundo, não restam dúvidas sobre a capacidade de aceleração do bólido, que encurta distâncias com voracidade e se mantém seguro em ritmos mais intensos. O zero a 100 km/h é cumprido em apenas 8,9 segundos e a velocidade máxima é de 200 km/h. O ronco encorpado do propulsor ressoa mesmo em baixas rotações, quando assume um tom “embaralhado”, como nos modelos de competição.
Se o motor é bastante eficaz, o câmbio não colabora tanto. A alavanca tem boa pega e acabamento em couro, mas o curso é longo demais e a precisão fica aquém da desejável para um modelo esportivo. Em ritmos mais tranquilos, a tarefa de mudar de marchas fica mais amigável.
No mais, o Punto T-Jet cumpre a cartilha de um hatch esportivo. A direção precisa auxilia nas curvas e transmite segurança em retas, sem exigir correções constantes. O conjunto de suspensões garante o equilíbrio, mesmo quando se despeja a potência no meio das curvas. Na hora de parar, os freios com discos ventilados dianteiros e rígidos traseiros oferecem segurança, mesmo em frenagens súbitas ou em velocidades mais elevadas.
Se o conforto é penalizado pelo rodar mais áspero, o pacote de equipamentos compensa em parte essa característica. Achar a melhor posição é uma tarefa auxiliada pelas amplas regulagens em altura e distância do volante e pelo ajuste de altura do banco do motorista. O sistema de som garante uma boa fidelidade de reprodução. Os bancos de couro, com faixa central em tecido, oferecem apoio eficiente nas curvas e não possuem espuma rígida em excesso. Outros opcionais enriquecem a convivência. O ar-condicionado automático é bem eficaz. O sistema de navegação possui funcionamento semelhante ao do Linea. E, para os que valorizam uma maior integração com o ambiente, ainda há o vistoso teto solar panorâmico Skydome, que sai por também chamativos R$ 5.460.
O espaço interno é generoso para os passageiros frontais, que contam com um bom espaço para as pernas e cabeças. Atrás, dois ocupantes viajam com conforto. Um terceiro passageiro irá se ressentir de espaço para os ombros, além do encosto central abrigar um descansa braços ressaltado. O porta-malas de 280 litros não se destaca no segmento. O estilo esportivo do modelo, junto com o ronco advindo da saída dupla do escape, ajuda a virar os pescoços nas ruas. E, de certa forma, é esse mesmo o objetivo implícito do Punto T-Jet: chamar a atenção.