Elemento de transição
Versão de entrada GLX faz a “ponte” com o compacto C3 e puxa as vendas do Citroën C4 hatch
Auto Press
Texto: Diogo de Oliveira
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Como a própria marca Citroën no Brasil, o C4 hatch ostenta uma certa “aura” de sofisticação. Glamour tem lá seu valor, mas o preço conta muito no mercado brasileiro. Não por acaso, a versão GLX 1.6 16V flex é a que puxa as vendas do hatch médio lançado em março. Representa 60% do mix. Das 1.706 unidades somadas pelo novo modelo nos três primeiros meses de vendas, cerca de mil modelos foram da configuração básica, comercializada a partir de R$ 52.600. O restante se divide entre as outras duas versões, a GLX 2.0 Flex e a Exclusive 2.0 flex, ambas com opção de câmbio manual ou automático – sem falar no cupê VTR, importado da França. Ou seja, dentro do espectro de produtos da Citroën, o C4 hatch GLX faz uma espécie de elo entre a linha de hatchs médios com a versão “top” do compacto C3, a Exclusive automática, vendida a R$ 49.310 – mas que, com os opcionais, bate R$ 53.300.
A exemplo do próprio compacto da Citroën, o C4 hatch foi posicionado num segmento dos modelos chamados “premium”. Com rodas de liga leve aro 16 opcionais, no lugar das de aço de 15 polegadas, a versão GLX 1.6 flex vai a R$ 54.400. Por esse preço, passa a brigar diretamente com modelos de motorização 2.0, como o Chevrolet Vectra GT e o Ford Focus da nova geração. E custa mais caro que seus outros rivais, como Volkswagen Golf, Fiat Stilo, Peugeot 307 e Nissan Tiida, que partem de R$ 45 mil. Só que o que tem embalado a versão básica do hatch médio nas vendas é curiosamente o preço, combinado ao conteúdo oferecido. A lista de série é interessante. Há direção eletro-hidráulica progressiva, ar-condicionado, vidros, travas e espelhos laterais com acionamento elétrico, rádio/CD com MP3, volante multifuncional de cubo fixo com comandos do som e do computador de bordo, além de airbags duplos frontais e freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência.
Já o motor 1.6 16V flex, disponível apenas na versão GLX, tem proposta mais racional e não oferece um desempenho propriamente viril. A unidade de força vem acoplada a um câmbio manual de cinco marchas e produz 110/113 cv de potência com gasolina/álcool aos 5.600 rpm e razoáveis 14,5/15,8 kgfm de torque máximo ao 4 mil giros, na mesma ordem. Esta versão pode receber o propulsor 2.0 16V flex, que também empurra o sedã C4 Pallas. A unidade gera 143/151 cv de potência aos 6 mil giros e 20,4/21,6 kgfm de torque aos 4 mil rpm e pode vir equipada com câmbio manual ou automático sequencial de quatro marchas. Já a versão topo de linha Exclusive é sempre equipada com o motor 2.0 16V flex e traz uma lista de série que reúne itens como ar-condicionado digital bizone, faróis de xênon direcionais, sensores de obstáculos traseiro, de chuva e de luminosidade, bancos em couro e airbags laterais e do tipo cortina.
Mesmo na versão mais básica, no entanto, o C4 tem a seu favor o design moderno, de linhas marcantes. A dianteira é exatamente a mesma do sedã Pallas e do cupê francês VTR – lá fora, o C4 passou por um leve “face-litf”, mas ainda há unidades do VTR com a frente antiga em estoque no Brasil. Os destaques são a larga tomada de ar incorporada ao para-choques, que se estende praticamente de ponta a ponta, e os faróis de base achatada que sobem arqueados em diagonal nas extremidades, de encontro aos para-lamas. Nas laterais, a linha do teto forma uma longa parábola. Mas é a traseira que mais chama a atenção no hatch, com as lanternas verticalizadas de base larga e cortes irregulares, que sobem afiladas pelas colunas até quase tocar o teto.
O glamour que o C4 hatch busca transmitir esteticamente também está explícito no acabamento interno cheio de peculiaridades. A maior delas é o quadro de instrumentos digital projetado sobre uma lâmina translúcida no topo do console central. Não por acaso, a Citroën anda esperançosa de que as vendas do C4 cresçam nos próximos meses. De acordo com a montadora, há uma fila de espera de cerca de um mês para o modelo. A justificativa são as férias coletivas concedidas em janeiro e fevereiro pelo grupo PSA Peugeot Citroën aos funcionários da planta argentina de El Palomar, onde o hatch médio e o sedã C4 Pallas são fabricados. Já a confiança vem da resposta do mercado em abril, quando o C4 somou 572 vendas. Mesmo partindo de um preço mais elevado em relação à maioria dos concorrentes.
Instantâneas
# O Citroën C4 hatch foi lançado na Europa no fim de 2004, durante o Salão do Automóvel de Paris. No evento também foram exibidos outros modelos da linha de médios, como a minivan C4 Picasso.
# Somente a versão “top” Exclusive do C4 hatch equipada com o câmbio automático pode receber um pacote de equipamentos que reúne sistemas mais sofisticados, como controles eletrônicos de estabilidade e de tração, por R$ 5.900.
# Segundo a Citroën, o C4 hatch tem 60% de índice de “nacionalização” das peças no Mercosul, com 55% dos componentes compartilhados com o sedã Pallas.
# Nada menos que 85% das unidades do C4 hatch vendidas até o momento são pintadas ou na cor preta ou prata, com 40% e 45%, na ordem.
Ficha técnica
Citroën C4 hatch GLX 1.6 16V flex
Motor: A álcool e a gasolina, dianteiro, transversal, 1.597 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo no cabeçote. Injeção eletrônica de combustível multiponto sequencial. Acelerador eletrônico.
Transmissão: Manual com cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração na versão.
Potência máxima: 113 cv a álcool e 110 cv a gasolina a 5.600 rpm.
Torque máximo: 15,8 kgfm a álcool e 14,5 kgfm a gasolina a 4 mil rpm.
Diâmetro e curso: 78,5 mm X 82 mm. Taxa de compressão: 11,0:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços inferiores triangulares, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira independente do tipo eixo de torção, com braços estendidos, travessa deformável, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade na versão.
Freios: Discos ventilados na frente e discos sólidos atrás. Oferece de série ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência.
Carroceria: Hatch em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Dimensões: 4,26 metros de comprimento, 1,77 m de largura, 1,46 m de altura e 2,60 m de entre-eixos. Oferece airbags frontais de série. Não oferece airbags laterais e do tipo cortina na versão.
Peso: 1.200 kg em ordem de marcha com 532 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 320 litros.
Tanque de combustível: 60 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – No dia-a-dia, o C4 hatch é um carro interessante, com boa disposição e comportamento ágil. A Citroën mexeu no escalonamento do câmbio, que também equipa o sedã C4 Pallas, e encurtou as três primeiras marchas para compensar a relação peso/potência sem sobras, de 10,6 kg/cv, e assim aumentar a agilidade. A unidade de força 1.6 16V flex não é capaz de produzir acelerações realmente empolgantes no modelo, que pesa 1,2 tonelada, mas tem respostas bem coerentes. Os 113 cv de potência com álcool levam o hatch médio à máxima de 165 km/h e os 15,8 kgfm de torque, despejados aos 4 mil giros, proporcionam boas arrancadas. O zero a 100 km/h é cumprido em corretos 11,9 segundos e a retomada de 60 km/h a 100 km/h, em quarta marcha, em 13 segundos. Nas ladeiras, no entanto, falta um pouco de fôlego ao propulsor 1.6 litro. Nota 7.
Estabilidade – O comportamento do C4 hatch nas ruas e estradas prima pela segurança. Independentemente da velocidade em que se trafega, o modelo tem um comportamento estável em curvas e retas e transmite grande equilíbrio ao condutor. Nas curvas mais fechadas, a carroceria torce muito pouco e, nas frenagens intensas, o veículo permanece grudado no asfalto, sem mergulhar a frente. E o sistema de freios com ABS ajuda a neutralizar ainda mais o comportamento do modelo. Nota 8.
Interatividade – O C4 hatch é, no mínimo, surpreendente. A começar pelo volante de cubo fixo incomum, que traz comandos do som, do computador de bordo e do controle de cruzeiro. Nele, só a posição da buzina incomoda e requer alguma intimidade, já que fica em um filete em arco na base do cubo. Outro destaque no hatch médio é o sofisticado quadro de instrumentos digital, exibido em uma lâmina translúcida sobre o console central. Já as trocas de marcha são dificultadas pelo câmbio, pouco preciso e um tanto mole nos engates. A alavanca está agradavelmente próxima ao volante, mas o curso é mais longo que o desejável – principalmente na hora de acessar a quinta marcha. No quesito visibilidade, os espelhos laterais em formato de folha têm ótima amplitude. Nota 8.
Consumo – Pelo porte, o C4 hatch obteve desempenho razoável rodando com álcool no tanque. A média foi de 7,3 km/l num percurso com 1/3 de estrada e 2/3 de cidade. Nota 7.
Conforto – O C4 foi projetado para ser um carro aconchegante. E deu certo. A suspensão bem calibrada é macia e absorve as irregularidades da pista com eficiência, sem também comprometer o comportamento dinâmico. Já o espaço interno é bem aproveitado na frente e atrás, com ótimo vão para pernas e cabeça. Dois adultos viajam muito bem no banco traseiro – um terceiro ocupante reduz sensivelmente o conforto geral. O isolamento acústico é outro item que agrada, com filtragem eficiente dos ruídos. Nota 8.
Tecnologia – O C4 hatch é bem servido neste quesito. Sob o capô, o motor 1.6 16V flex traz o bloco em alumínio em vez de ferro fundido. Já o projeto estrutural é relativamente novo, com pouco mais de quatro anos – o modelo foi lançado no Salão de Paris de 2004. E o hatch médio ainda oferece uma quantidade grande de equipamentos e eletrônica embarcada desde a versão básica GLX. São de série ar-condicionado, direção eletro-hidráulica, trio elétrico, computador de bordo, controle de cruzeiro, rádio/CD com MP3 e o volante multifuncional com o miolo fixo. Airbags duplos frontais e freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de urgência completam a lista. Nota 8.
Habitabilidade – Há grande quantidade de porta-objetos e de iluminação no C4 hatch, o que torna o veículo agradável em viagens e no próprio dia-a-dia. O apoio de braço central, entre os bancos dianteiros, poderia ter um porta-objetos a mais embutido – não há compartimento. O porta-malas leva razoáveis 320 litros e não é dos maiores, mas está dentro da média do segmento. Já os acessos do veículo são amplos, inclusive o do porta-malas, que tem ótimo vão para a entrada de objetos maiores. As portas, porém, são bem pesadas. Nota 7.
Acabamento – A versão de entrada GLX 1.6 16V flex não oferece luxo. Mas também não é nada “básica”. Grande parte do painel é coberta por peças de plástico acolchoadas, com encaixes precisos e texturas de bom gosto. O revestimento em tecido camurçado nos bancos e portas também transmite algum requinte. Não há rebarbas. Nota 8.
Design – É um dos principais atributos do C4. O hatch médio fabricado na Argentina tem personalidade forte com suas linhas harmônicas e porte “troncudo”. Na dianteira, chamam a atenção a larga tomada de ar no para-choques e os faróis com base horizontal que sobem em diagonal nas pontas, em direção aos pára-lamas – iguais ao do sedã Pallas e do cupê VTR. Mas o grande destaque no modelo é a traseira em forma de arco, com lanternas verticalizadas de base larga que sobem pelas colunas traseiras e acompanham o formato do vidro. Na Europa, o C4 recebeu alterações na saia e para-choques dianteiros, com uma aumento da entrada de ar. Nota 8.
Custo/Benefício – O C4 hatch, vendido a partir de R$ 52.600, definitivamente não é um carro barato, mesmo na configuração mais simples GLX 1.6 16V flex. Ele tem uma boa quantidade de equipamentos e cobra por isso. Seus rivais com itens similares têm preços próximos. Nota 6.
Total – O Citroën C4 hatch GLX 1.6 flex somou 75 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Questão de estilo
Em um país como o Brasil, em que veículos compactos predominam amplamente, ter um carro médio pode até ser sinal de status. Mas as sensações a bordo do Citroën C4 hatch vão muito além do visual moderninho ou de um tamanho privilegiado em relação aos compactos. A começar pelo refinamento do interior, presente desde a versão de entrada GLX 1.6 16V flex. Os bancos revestidos em tecido camurçado oferecem acomodação confortável com seu formato anatômico e regulagem de altura para o motorista. O espaço interno amplo para pernas e cabeça na frente e atrás ajuda a tornar o ambiente ainda mais aconchegante. Já o painel e portas são cobertos por plásticos rígidos, com boa parte deles acolchoados e de texturas que transmitem requinte – muito embora o C4 não seja um automóvel de luxo.
Os comandos ficam nos lugares onde se espera que estejam. E, no caso da linha de médios C4, o hatch possui o sofisticado volante de cubo fixo com comandos do som, do computador de bordo e do controle de cruzeiro. Outro destaque é o quadro de instrumentos digital exibido em uma lâmina translúcida fixada no topo do console central. O C4 hatch tem ainda a seu favor dois outros aspectos que antecedem a partida no motor. Um é o fato de ser um lançamento. Tem apenas três meses de mercado e ainda é raridade nas ruas. O segundo é o design marcante, de linhas bojudas, imponentes e de forte personalidade. A frente é idêntica à do sedã Pallas e o maior destaque é a traseira com colunas em arco e lanternas verticalizadas de base larga e recortes irregulares.
Um ambiente convidativo mas que, como em toda versão de entrada, tem lá suas limitações. E o motor 1.6 16V flex nem é uma delas, apesar de não ser um ponto forte do robusto modelo. Os 110/113 cv de potência com gasolina/álcool despejados aos 5.600 rpm são capazes de levar o C4 hatch a velocidades bem razoáveis – a máxima é de 165 km/h. O torque de 14,5/15,8 kgfm, na mesma ordem, liberados aos 4 mil giros, é suficiente para empurrar de forma enérgica suas 1,2 tonelada. Foram necessários corretos 11,9 segundos para arrancar de zero a 100 km/h e 13 s para retomar o fôlego de 60 km/h aos 100 km/h.
Para buscar um comportamento mais ágil, a Citroën encurtou as três primeiras relações do câmbio manual de cinco marchas, o que funcionou muito bem. Mas as trocas são atrapalhadas pelo curso longo e pela falta de precisão nos engates. Um acerto da engenharia está no sistema de suspensão, calibrado para ser macio o suficiente e, ao mesmo tempo, proporcionar grande aderência do veículo na pista. É exatamente o que acontece a bordo do C4 hatch, com pouca torção da carroceria e um bom equilíbrio em curvas. O C4 fica sob controle o tempo todo e oferece uma precisa comunicação entre rodas e volante.
Para completar, o C4 hatch oferece uma lista de série interessante, com os equipamentos de conforto e entretenimento considerados primordiais no segmento de médios. Então lá ar-condicionado, direção eletro-hidráulica, trio elétrico, computador de bordo e controle de cruzeiro, rádio/CD com leitor de MP3, além de duplo airbag frontal e freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de urgência. Um pacote dentro do nível requintado que o modelo oferece e – num mercado de preços elevados como o brasileiro – coerente com os R$ 54.400 pedidos na versão GLX 1.6 16V flex equipado com rodas de liga leve.