Preferência nacional
Nissan adota motor flex no Tiida para tentar reforçar presença do modelo no mercado brasileiro
Auto Press
Texto:Julio Cabral
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Mais do que um recurso de economia, motorização flex é um instrumento de marketing. Para a Nissan, a oferta do Tiida Flex vira um importante apelo comercial, já que cerca de 96% dos carros de passeio vendidos no Brasil são flexíveis. Além disso, é uma forma de aproximar a marca japonesa de uma identidade brasileira. Outra forma de aproximação, só que com o consumidor brasileiro, é pelo bolso. Afinal, o custo/benefício é um dos principais argumentos do Tiida. Um exemplo é a versão top SL 1.8 16V automática. Ela parte de competitivos R$ 60.780 com um bom pacote de equipamentos, o que inclui ar digital, direção elétrica, trio, airbag duplo, teto solar elétrico, entre outros.
Estratégia reforçada na linha 2009, quando o Tiida recebeu mais itens, além do propulsor que aceita álcool e gasolina. Todas as versões passaram a vir com travamento automático das portas em movimento, rádio/CD /MP3 com entrada auxiliar e computador de bordo com mais funções. A top SL avaliada recebeu, ainda, controle de cruzeiro integrado ao volante, como no sedã Sentra. O modelo mais completo conta ainda com revestimento em couro, ajuste de altura para volante e banco do motorista e rodas de liga leve aro 15. Na segurança, além do airbag duplo, a versão tem freios com ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência. Falta um cinto de três pontos para o passageiro central traseiro.
Um pacote competitivo no segmento.
Afinal, seus principais rivais automáticos, com equipamentos similares, têm preços próximos. O Ford Focus GLX 2.0 16V parte de R$ 60.160, o Chevrolet Vectra GT 2.0 8V custa R$ 61.700, o Citroën C4 GLX 2.0 16V é vendido por R$ 60.200 e o Peugeot 307 Presence Pack 2.0 16V começa em R$ 62.990 – mas nem todos oferecem couro e o teto solar é de série apenas no modelo da Peugeot. Já o Volkswagen Golf 2.0 Tiptronic chega a R$ 66.115 com a maioria dos itens encontrados no Tiida SL automático. Ainda há o recém-chegado Hyundai i30 GLS 2.0 16V, que parte de R$ 58 mil na versão automática, mas que, assim como o Focus, não oferece motor flex.
O propulsor 1.8 16V do Tiida, agora, é o mesmo que equipa a linha Livina nacional, capaz de gerar 125/126 cv de potência – respectivamente, a gasolina e álcool – a 5.200 rpm e 17,5 kgfm de torque a 4.800 rpm com qualquer um dos combustíveis. O sistema flex nesse caso serve mais aos propósitos do mercado do que dinâmicos, pois a potência subiu apenas 2 cv em comparação ao movido a gasolina, com 124 cv a 5.500 rpm, sem acréscimo no torque. O propulsor é um projeto atual, com bloco e cabeçote em alumínio e comando de válvulas com variação na abertura, que na versão SL testada vem acoplada a um câmbio automático de quatro velocidades.
A plataforma utilizada pelo Tiida é a "B0", que serve a variados modelos compactos do grupo Renault-Nissan, como os hatches Sandero e Clio de terceira geração europeu – uma à frente do brasileiro – e o monovolume Livina. As medidas são suficientes para abrigar quatro passageiros confortavelmente, com 4,29 metros de comprimento, 1,69 m de largura, 2,60 m de entre-eixos e 1,54 m de altura. O Tiida se destaca pela possibilidade de regulagem dos assentos traseiros: o encosto pode ser reclinado e o assento pode ser deslocado longitudinalmente. Com isso, pode-se privilegiar o espaço para as pernas dos ocupantes de trás e abrigar 289 litros no porta-malas, ou expandir esse volume até 463 litros. Um recurso que reforça o estilo "família" do modelo.
Mesmo com apelo familiar e motor álcool/gasolina, o Tiida ainda engatinha no mercado nacional. Em maio e junho, primeiros meses com a tecnologia flex, foram vendidos 211 e 229 veículos, respectivamente, segundo o Renavam. Uma média menor que as 270 unidades mensais do ano passado. Reflexo, talvez, da dependência da produção na planta do México, do limitado número de revendas no Brasil – 68 – ou da própria imagem de marca estrangeira que persegue a Nissan. Uma imagem que até mesmo o motor flex tem dificuldade de mudar.
Instantâneas
# O Tiida foi apresentado em 2004 no Japão e lançado em julho de 2007 no Brasil. No Japão, o modelo recebeu um facelift em janeiro de 2008, com retoques nos faróis e lanternas, para-choques, grade dividida e novos grafismos no painel.
# Na linha 2009 a garantia foi estendida de dois para três anos.
# O Tiida tem a opção de duas cores sólidas, preto e vermelho, e três metálicas – prata classic, cinza airstream e cinza magnetic.
# Nos Estados Unidos, o Tiida é comercializado com o nome Versa e possui opção de câmbio do tipo CVT na versão SL, como o sedã Sentra.
# No exterior, o modelo também está disponível na carroceria sedã. Essa configuração deve vir para o Brasil com a bandeira da Dodge e sob a alcunha de Trazo.
# A Nissan oferece nas concessionárias uma linha de acessórios para o Tiida, tais como frisos cromados da entrada de ar, barra cromada no porta-malas, aerofólio, ponteira de escapamento cromada, rack no teto, spoilers dianteiro e traseiro e saias laterais.
Ficha técnica - Nissan Tiida SL 1.8 16V Flex automático
Motor: A gasolina e álcool, dianteiro, transversal, 1.798 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo de válvulas no cabeçote. Injeção e acelerador eletrônicos.
Transmissão: Câmbio automático de quatro marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 125 cv com gasolina e 126 cv com álcool a 5.200 rpm.
Torque máximo: 17,5 kgfm com gasolina e álcool a 4.800 rpm.
Diâmetro e curso: 84 mm x 81,1 mm. Taxa de compressão: 9,9:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com barra estabilizadora, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos e barra estabilizadora. Traseira semi-independente, com eixo de torção molas helicoidais, amortecedores hidráulicos telescópicos e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos na frente e tambores atrás. Oferece ABS e EBD de série na versão.
Carroceria: Hatchback, com quatro portas e cinco lugares. 4,29 metros de comprimento, 1,69 m de largura, 1,54 m de altura e 2,60 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal de série na versão.
Peso: 1.260 kg em ordem de marcha, com 390 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 289 litros/463 litros com o deslizamento do banco traseiro.
Tanque de combustível: 52 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – O motor 1.8 16V, com 126 cv e 17,5 kgfm, garante uma boa performance no uso diário. Se não é o suficiente para dotar o Tiida de um desempenho esportivo, o conjunto imprime agilidade. O câmbio automático de apenas quatro marchas não possui opções de trocas manuais nem de modo Sport, mas cumpre o papel, com reações e passagens rápidas. A aceleração de zero a 100 km/h foi cumprida em 12,3 segundos. O escalonamento do câmbio bem acertado proporciona retomadas seguras, como de 60 km/h a 100 km/h em Drive, executada em 8,8 s. O hatch ganha velocidade rapidamente até os 160 km/h, com velocidade máxima de 180 km/h. Nota 8.
Estabilidade – A suspensão concilia a estabilidade com conforto, sem deixar a carroceria torcer muito nas curvas. O Tiida é um carro bem assentado no chão, com um comportamento neutro na maioria das situações. Mesmo com pneus de perfil mediano, 185/65, o conjunto de rodas aro 15 e suspensão independente na dianteira e eixo de torção na traseira, com barras estabilizadoras, mantém o veículo na trajetória. A direção elétrica progressiva é leve no trânsito urbano e ganha mais peso em velocidades maiores. Os freios, a disco na dianteira e tambor na traseira, com ABS, EBD e assistente de frenagens de emergência, cumprem a tarefa de "estancar" o carro sem desvios. Nota 8.
Interatividade – O ajuste de altura do banco dianteiro e do volante – que não conta com profundidade regulável –, possibilitam uma posição de dirigir agradável. A convivência com o Tiida é amigável, com boa visibilidade externa e ergonomia eficiente. O quadro de instrumentos é dividido em três elementos e, junto com a iluminação âmbar, facilita a visualização. Nota 7.
Consumo – O Nissan Tiida SL 1.8 16V automático fez uma boa média de 6,9 km/l com álcool em um circuito 2/3 urbano e 1/3 estrada. Nota 7.
Conforto – O rodar do modelo é confortável, com um bom amortecimento de solavancos e imperfeições. Os bancos, revestidos em couro na versão SL, são largos e macios, com bom apoio lateral em curvas. O espaço interno é privilegiado pela boa altura do teto. Dois passageiros viajam bem instalados atrás graças aos espaços bem definidos e aos ajustes de reclinação do encosto e de distância do assento. Mas um terceiro ocupante traseiro não contará com a mesma "cortesia" de um assento bem anatômico, apoiando-se sobre o descansa braço. O ruído externo é abafado pelo isolamento acústico eficiente. Nota 8.
Tecnologia – A base utilizada é a mesma do Logan e da terceira geração do Renault Clio, lançada em 2004 na Europa. Embora não conte com recursos avançados, como suspensão traseira independente, a plataforma ainda é recente. O motor 1.8 16V ganhou sistema flexível de combustível e possui comando variável na abertura das válvulas. O Tiida SL automático traz de série uma boa lista de itens de conforto e de segurança, como ar digital, direção elétrica, freios ABS com EBD, airbag duplo, entre outros, mas carece de itens como entrada USB para o rádio e câmbio com trocas sequenciais. Nota 7.
Habitabilidade – Os acessos ao interior são fáceis. O porta-malas possui uma "boca" elevada e estreita e o volume de 289 litros é limitado. Mas isso é compensado pelo recurso de se chegar o banco traseiro para a frente, o que expande o espaço para 463 l. Há uma boa quantidade de porta-objetos, nas portas, no console e acima do rádio. O passageiro central traseiro só conta com cinto subabdominal. Nota 7.
Acabamento – Por fora, são notados pontos de soldas nas molduras das portas. No interior, os materiais são simples, mas a montagem é correta, sem rebarbas flagrantes na superfície ou encaixes mal-cuidados. Mas, entre os hatches médios, já é de se esperar um pouco mais de sofisticação, como superfícies macias ao toque. Nota 6.
Design – Embora tenha um estilo atual, o Tiida tem um desenho controverso. O capô é marcado por vincos que dão um ar mais robusto à dianteira. O perfil caimento acentuado do teto e a traseira possui lanternas elípticas que avançam sobre as laterais. As linhas são tipicamente nipônicas e realçam um ar familiar e vertical, meio minivan. Nota 6.
Custo/Benefício – Por R$ 60.780, o Tiida SL 1.8 16V flex automático se encontra junto a hatches médios de entrada, com motorizações em geral maiores e mais potentes, porém, menos completos. O pacote de equipamentos e a facilidade de utilização são dois pontos de destaque do modelo mexicano. Nota 8.
Total – O Nissan Tiida SL 1.8 16V Flex automático somou 72 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Conjunto afinado
O Tiida é daqueles carros que apostam na convivência diária, sem apelar para emoções como esportividade ou sofisticação. E é no dia-a-dia que o modelo apresenta as credenciais. A direção elétrica, de assistência variável, consegue aliviar um pouco o estresse do trânsito urbano. O motor cumpre o seu papel e dá ao carro agilidade para arrancar e manter velocidades elevadas sem vibrar demais ou se "esgoelar". Os 126 cv de potência com álcool e o torque de 17,5 kgfm são bem administrados pelo câmbio automático de quatro velocidades.
Em obstáculos cotidianos, como buracos e imperfeições do piso, os pneus de perfil mediano – 65 – e a distância livre do solo de 14,5 cm não deixam o motorista na mão. Embora seja importado, o Tiida se sente ambientado às esburacadas ruas brasileiras. E o ajuste confortável não penalizou o lado dinâmico do carro. Em curvas, o conjunto transmite confiança e não dá mostras de desgarrar.
O hatch goza de alguns toques muito bem vindos. Como os bancos largos, que são densos na medida e acomodam os ocupantes como poltronas e os porta-copos no console e no apoio de braço do banco traseiro. Os ajustes de inclinação e altura por meio de alavancas são de fácil acesso. Um ponto que faz falta é a regulagem de profundidade do volante de três raios, mas não chega a ser um empecilho para se encontrar uma boa posição de dirigir. O vidro traseiro de dimensões reduzidas compromete um pouco a visibilidade traseira pelo retrovisor interno. Mas os retrovisores externos e o final da carroceria bem delimitado facilitam a manobrabilidade.
No interior, quatro passageiros são tratados muito bem. Os ocupantes traseiros contam com assentos laterais bem demarcados e ainda têm a possibilidade de ajustar a inclinação e a distância do assento. Mas o ocupante central se sentirá incomodado com a faixa reservada para ele, restrita e com cinto cinto de dois pontos. A versão conta com teto solar elétrico de série, um item bem vindo, e o revestimento interno em couro preto perfurado dá um pouco de classe ao acabamento interno. O sistema de som com seis alto-falantes é descomplicado e reproduz com fidelidade. O painel, o volante, as maçanetas e a grade do câmbio possuem apliques metálicos, que quebram um pouco a sisudez da cabine de linhas retilíneas.
O convívio confortável compensa em parte a falta de "gadgets" e equipamentos que já se tornaram presença fácil no segmento de médios nos últimos tempos, como trocas sequenciais de marchas no câmbio automático, volante ajustável em profundidade e entrada USB no sistema de som. Ainda assim, com os reforços de novos itens recebidos no modelo 2010, o Tiida não chega a ser marcado pela austeridade.