À moda mineira
Produzido sem alarde em Juiz de Fora há quase um ano, Mercedes CLC passa a ser vendido no Brasil
AutoPress
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Fernando Miragaya/Carta Z Notícias
Parece lógico que o fato de um modelo ser fabricado no Brasil, mesmo voltado para exportação, facilite sua chegada ao mercado brasileiro. Mas não é bem assim. O cupê médio Mercedes-Benz CLC, por exemplo, é feito desde maio do ano passado em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. Mas só agora vai dar as caras no país. A lógica de projeto do modelo, inclusive, segue uma linha bem familiar a outros produtos feitos em linhas brasileiras por outras montadoras. A marca alemã simplesmente adaptou a plataforma da antiga geração do Classe C, que parou de ser produzido na Europa, para baratear a produção e posicionar o cupê em uma faixa de preço mais atraente. Se bem que, para os padrões brasileiros, o CLC não chega a ser acessível. A versão de entrada, 200 Kompressor, sai por R$ 124.900. Este valor não o deixa em significativa vantagem diante de rivais como o BMW 120i automático 2 portas, a R$ 134.750, e com o Audi A3 Sportback 2.0 S-Tronic, a R$ 124.163.
Essa inusitada relação custo/benefício do modelo substituto do Sports Coupé é motivada exatamente pela tal estratégia industrial de usar uma plataforma antiga. O CLC 200 Kompressor, na verdade, foi a solução encontrada pela Mercedes para manter em funcionamento a fábrica de Minas Gerais, uma planta que estava ociosa, mas contava com incentivos fiscais – inicialmente para produzir o monovolume Classe A. Só que, mesmo com uma plataforma já aposentada nos outros modelos da marca, trata-se de um Mercedes.
O que significa boas doses de tecnologia e conforto. O cupê médio, por exemplo, conta com uma suspensão moderna. São três braços em alumínio na frente e braços múltiplos atrás, ambos com barras estabilizadoras. Os amortecedores são a gás com controle eletrônico para alterar a rigidez, que se adequam ao tipo de terreno e de condução. Por dentro, o modelo conta com sistema de entretenimento, que reúne monitor colorido com informações sobre ar-condicionado, som e Bluetooth. Como opcional, pode receber uma nova interface com conectividade para iPod. Itens que já são aplicados em outros modelos da linha Mercedes.
O motor também é conhecido. Trata-se do 1.8 16V com compressor mecânico que gera 184 cv de potência a 5.500 rpm e um torque máximo de 25,5 kgfm disponíveis em uma faixa de rotações que vai dos 2.800 até os 5 mil giros. Mas em vez da moderna transmissão automática 7Gtronic de sete marchas, que é utilizada no novo Classe C e na versão V6 do cupê na Europa, a Mercedes optou por uma solução mais viável para manter o preço competitivo. O CLC usa o antigo câmbio automático de cinco velocidades com opção de mudanças sequenciais.
No visual, o CLC também é familiar. Na frente, adotou um estilo bem parecido com o da nova geração da Classe C, mas que está longe de garantir o arrojo que se espera em um cupê. O capô tem duas saliências que convergem para a grade frontal trapezoidal. Esta grade forma uma espécie de vinco central, como um bico, e ostenta a generosa estrela de três pontas da marca. Os faróis são levemente angulosos e invadem discretamente as laterais. A saia dianteira é separada dos para-choques por uma moldura cromada e traz os faróis de neblina redondos.
Nas laterais, o estilo cupê fica mais em evidência. Graças principalmente à linha de cintura em cunha acentuada e ao caimento forte, em arco, da terceira coluna. Ainda de perfil, o modelo conta com uma pequena saliência na altura das maçanetas na diagonal, uma moldura na parte inferior da carroceria e rodas de liga leve aro 17. Na traseira, as lanternas formam desenhos de asas e se pronunciam nas laterais formando culotes. A tampa do porta-malas elevada traz um filete em leds que faz as vezes de brake-light.
No mais, tudo que se espera de um carro de R$ 124 mil e de um Mercedes. Freios com ABS e EBD, seis airbags, faróis com função de iluminação de curva, ar-condicionado, direção hidráulica, trio elétrico, computador de bordo, controle de cruzeiro, ajustes de altura e de profundidade do banco do motorista, rádio/CD/MP3, bancos de couro, detalhes em aço escovado, entre outros. O suficiente para não desmerecer a estrela de três pontas na ponta do capô. Mas nada que pudesse fazer o preço desinteressante. Afinal, esse é o maior trunfo do CLC.
Instantâneas
# O Mercedes-Benz CLC substitui o Classe C Sports Coupé, que foi fabricado entre 2001 e 2007.
# Na Europa, o CLC também é vendido na versão com motores gasolina 2.5 V6 de 203 cv e 3.5 V6 de 271 cv. Já a versão turbo-diesel 2.2 16 V gera 122 cv.
# No mercado europeu, o cupê da Mercedes é comercializado com preços entre 28 mil e 37 mil euros.
# No Brasil, a Mercedes importa outros quatro cupês – CL, CLK, CLS e SLR McLaren – e dois cupês-conversíveis – SLK e SL.
# A planta de Juiz de Fora foi inaugurada em 1999 e fabricou o Classe A entre 2000 e 2006, quando uma nova geração do monovolume foi lançada na Europa.
Ficha técnica
Mercedes Benz CLC 200 Kompressor
Motor: A gasolina, dianteiro, longitudinal, 1.796 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo de válvulas no cabeçote. Injeção eletrônica multiponto seqüencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio automático de cinco marchas com trocas sequenciais. Tração traseira. Oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 184 cv a 5.500 rpm.
Torque máximo: 25,5 kgfm de 2.800 a 5 mil rpm.
Diâmetro e curso: 82 mm x 85 mm. Taxa de compressão: 8,5:1.
Suspensão: Dianteira independente de três braços transversais, com barra estabilizadora, molas helicoidais e amortecedores eletrônicos a gás. Traseira por eixo múltiplo, molas helicoidais, amortecedores eletrônicos a gás e barra estabilizadora. Oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e sólidos atrás. Oferece ABS e EBD.
Carroceria: Cupê médio em monobloco, com duas portas e quatro lugares. 4,45 metros de comprimento, 1,72 m de largura, 1,40 m de altura e 2,71 m de entre-eixos. Oferece airbags frontais, laterais e do tipo cortina.
Peso: 1.480 kg em ordem de marcha, com 470 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 310 litros/1.100 litros com banco rebatido.
Tanque de combustível: 62 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – O ímpeto esportivo do Mercedes CLC dá as caras logo nos primeiros movimentos. O motor reage rapidamente e proporciona arrancadas vigorosas. Quando o compressor entra em ação, guiar o cupê mineiro fica ainda mais divertido e levar o ponteiro do velocímetro até 180 km/h é uma tarefa simples e curta. As retomadas são ainda mais eficazes, graças ao torque de 25,5 kgfm disponível numa boa faixa de giros: entre 2.800 rpm até 5 mil rpm. Apenas um pequeno delay é notado entre a quarta e a quinta marchas, mas nada que desabone o eficiente desempenho. Nota 9.
Estabilidade – O CLC é um carro sob controle e bastante equilibrado. Enfrentando curvas fechadas, a carroceria torce um pouco, mas o comportamento dinâmico é exemplar. Vale lembrar que o cupê conta com controle eletrônico de estabilidade, além de ABS e EBD, que ajudam a manter a trajetória em todas as situações. Nas frenagens, a suspensão bem calibrada também evita que a frente mergulhe. Nas retas, a 180 km/, o CLC se porta tão bem que parece que se está guiando a 100 km/h. Nota 9.
Interatividade – O cupê da Mercedes tem regulagens diversas para os bancos dianteiros, mas todas manuais e algumas de difícil acesso. Como a alavanca que ajusta a altura, bem próxima ao vão entre o assento e a porta, ou a que regula a inclinação do encosto, também complicada de manusear e onde é preciso espremer os dedos. No mais, a ergonomia é eficiente, com os principais comandos bastante intuitivos e práticos. A direção é bastante rígida e privilegia a esportividade, assim como os pedais, bastante duros. A visibilidade é ruim, devido ao diminuto vidro traseiro e às largas colunas centrais e traseiras. Nota 7.
Consumo – O computador de bordo do modelo avaliado assinalou 8,3 km/l em um trecho majoritariamente rodoviário. Nota 7.
Conforto – Na frente, há bom espaço para pernas, braços e cabeça. Os bancos envolvem bem os ocupantes. Atrás, porém, a faceta cupê compromete primeiramente o vão para as pernas. Além disso, pessoas com mais de 1,70 m de altura sofrem com a curvatura acentuada do teto. A suspensão mais firme para uma condução esportiva absorve de forma razoável os buracos, muito beneficiado pelo amortecedor a gás. Já o isolamento acústico é exemplar e, mesmo em velocidades superiores a 150 km/h, não se percebe o barulho do motor. Nota 8.
Tecnologia – Apesar de usar a plataforma do antigo Classe C, que data de 2001, o CLC é um carro consistente em suas características. Conta com suspensão em alumínio e com amortecedores a gás, e motor 1.8 16V com compressor mecânico. Na parte de segurança, oferece controles de estabilidade e de tração, seis airbags, freios com ABS e EBD, entre outros. Nota 8.
Habitabilidade – Os acessos são dificultados pela baixa altura do veículo. Para complementar, é um cupê de duas portas e quem tem de entrar no banco de trás precisa exercitar um verdadeiro contorcionismo. Ainda mais que os bancos dianteiros não deslizam quando rebatidos para facilitar o acesso para quem vai atrás. Os porta-objetos nas portas são de tamanho razoável, o descansa-braço oferece um bom compartimento refrigerado e há ainda dois práticos porta-copos no console central. Nota 7.
Acabamento – É um Mercedes, o que significa um cuidado com os revestimentos de portas, painéis e bancos. Os materiais utilizados aparentam qualidade e os encaixes e fechamentos beiram a perfeição. Nota 9.
Design – O modelo adotou a frente da nova geração do Classe C e, apesar de ter um caimento de cupê, falta um pouco mais de ousadia e arrojo às linhas. Mesmo assim, é um modelo estiloso e a estrela de três pontas na grade frontal sempre confere um status. Nota 8.
Custo/Benefício – Por R$ 124.900, trata-se de um cupê com preço equivalente aos rivais de marcas premium no mercado brasileiro, como hatchs compactos BMW Série 1 e Audi A3 Sportback. Nota 7.
Total – O Mercedes-Benz CLC 200 K somou 79 pontos em 100 possíveis.
Primeiras impressões - Mineirinho invocado
Juiz de Fora/MG – O fato de usar a plataforma da antiga geração do Classe C até desperta uma suspeita inicial em torno do CLC. Mas a verdade é que a tecnologia da Mercedes-Benz era bem superior à média e, por isso, mesmo sendo antiga, ainda responde bem às solicitações atuais. Ou seja: ao se acionar o motor do cupê médio fabricado em Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais, a aura da marca se faz presente. Os ponteiros do conta-giros dão um salto enquanto o motor 1.8 16V ronca suave. Câmbio em drive, é hora de pôr a prova o compressor mecânico do propulsor de 184 cv.
E o CLC mostra disposição de sobra. O pedal do acelerador e a direção mais firme convidam para uma condução mais arrojada e o modelo responde bem às pisadas com o pé direito. Chegar aos 150 km/h é uma tarefa das mais simples. Depois, basta pisar mais fundo e alcançar os 180 km/h num piscar de olhos. Nesta velocidade, as virtudes do CLC afloram. Além do ótimo isolamento acústico, a comunicação entre rodas e volante se mostra precisa, sem qualquer sinal de flutuação.
Nas curvas, o comportamento se mantém exemplar. Carroceria torce dentro da normalidade e o modelo não faz qualquer menção de jogar a traseira. Muito amparado pelos controles de estabilidade e de tração, que corrigem eventuais abusos. Nas freadas bruscas, é a vez do ABS e EBD darem aquela mãozinha para o cupê não sair da trajetória e atender aos comandos do motorista.
Por dentro é que os defeitos do CLC são percebidos. Para quem viaja na frente há um bom espaço para pernas e cabeça, mas os comandos que regulam os bancos são de difícil acesso. É preciso espremer a mão e arrastar o braço para acionar a alavanca que regula a altura do assento ou a que inclina o encosto do banco. Atrás, a situação fica comprometedora. Afinal, é um cupê, e o fato de ter duas portas e caimento acentuado da carroceria na terceira coluna compromete o vão para as cabeças.
O espaço para pernas também é mínimo. Para completar, como um cupê tradicional, a configuração duas portas ainda complica os acessos aos assentos traseiros. Um trilho que fizesse os bancos dianteiros deslizarem para a frente já ajudaria. No mais, a ergonomia é eficiente para o motorista. Na hora de estacionar ou de avançar cruzamentos, atenção redobrada e pescoço esticado, já que as generosas colunas do meio e de trás atrapalham a visão o motorista.