O valor da imagem
Honda pega carona na boa fama que conquistou no Brasil para emplacar o sedã City
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
A Honda colhe os frutos de sua estratégia no Brasil com o City. A marca japonesa construiu no mercado brasileiro, ao lado de sua arquirrival Toyota, uma imagem de fabricante de carros de qualidade, que não quebram. Agora, lança mão dessa imagem com o sedã compacto. E nem se faz de rogada ao abusar da fama. O que fica evidente já nos preços. O três volumes compacto fabricado em Sumaré começa em R$ 53.990 na versão de entrada LX 1.5 e chega a R$ 71.095 na configuração topo de linha EXL 1.5 automática avaliada. Ou seja, o City atua em faixas de preço bem próximas das ocupadas por seu companheiro de vitrine Civic, o sedã médio da Honda. Mesmo assim, assinalou em setembro, segundo mês cheio de vendas, 3.622 unidades, 42% a mais que agosto.
É claro que esse desempenho resultou em uma relativa canibalização dentro da linha. O Civic vendeu 4.295 e evoluiu apenas 26% em um mês de corrida às revendas por conta do fim do desconto do IPI – e perdeu a liderança para o eterno rival Toyota Corolla, que vendeu 5.402, 47% a mais que agosto. Mas o fato é que o City vende, mesmo com custo/benefício pouco favorável e acabamento abaixo do padrão da marca – tanto que a Honda só vai comercializá-lo nos denominados países emergentes. Um exemplo é o próprio modelo top EXL 1.5 automático testado, que responde por 10% das vendas, apesar de custar mais caro que várias configurações do Civic, sedã maior, melhor acabado e com propulsor mais potente.
De qualquer forma, a unidade de força do City é bem eficiente. O motor i-VTEC 1.5 16V Flex tem controle variável de abertura de válvulas e entrega 115 cv de potência com gasolina e 116 cv com álcool, a 6 mil rotações. Já o torque máximo é sempre de 14,8 kgfm a 4.800 giros com qualquer mistura de combustível. O conjunto mecânico inclui uma transmissão automática de cinco velocidades, mas a versão EXL é a única que conta com paddle shift, as borboletas atrás do volante para efetuar mudanças de marcha sequenciais.
É verdade que o City vem relativamente bem equipado. Todas as versões contam com airbag duplo frontal e itens obrigatórios para um modelo que quer se situar no segmento de sedãs compactos premium. Estão lá ar, direção elétrica, trio, banco do motorista e volante com ajustes de altura e de profundidade, abertura e travamento das portas na chave, computador de bordo, espelhos nos para-sóis e rádio/CD/MP3 com entrada USB e P2. A EXL se difere pelos cromados nas maçanetas externas, na ponteira do escapamento e em detalhes internos, freios com ABS, ar automático e digital, retrovisores com setas integradas, controle de cruzeiro e pelo revestimento do porta-malas – que tenta esconder uma inacreditável folha de fibra de madeira prensada que cobre o estepe, itens que também surgem na intermediária EX.
Os diferenciais da top de linha do City ficam por conta do revestimento em couro, do tweeter para o sistema de som e do paddle shift na versão automática. O que prejudica o custo/benefício e o torna uma configuração fora de preço. Afinal, os rivais do City EXL 1.5 automático seriam outros compactos premium, como Volkswagen Polo sedã e Fiat Linea, únicos que oferecem câmbio automatizado. No caso do exemplar da Volks, a versão Comfortline 1.6 i-Motion chega a R$ 60.095 e o Linea Absolute 1.9 16V Dualogic custa R$ 65.540.
Com os R$ 71.095, o modelo topo de linha do City fica próximo de sedãs médios – geralmente com espaço interno maior e motores mais potentes. Ele é mais caro, por exemplo, que o Renault Dynamique 2.0 16V automático – R$ 66.470 – com motor de 138 cv e basicamente os mesmos itens. Fica um pouco mais barato que o Toyota Corolla XEI automático, que usa motor de 136 cv e custa R$ 72.690. E chega a ter praticamente o mesmo preço de seu companheiro de vitrine: o Civic LXS automático, que começa em R$ 71.755 e tem propulsor de 140 cv. Passada a novidade, fica difícil imaginar que só a imagem da Honda seja suficiente para fazer vender as caríssimas versões de topo do City.
Instantâneas
# O Honda City foi apresentado oficialmente no Salão de Istambul, na Turquia, em outubro de 2008.
# O modelo é fabricado na planta da Honda em Sumaré, interior paulista, onde também são produzidos o sedã médio Civic e o monovolume Fit.
# Segundo a Honda, o City usa elementos da plataforma da nova geração do Fit.
# O projeto inicial da Honda previa que o sedã compacto ia ser fabricado na Argentina, mas os planos foram alterados ainda no ano passado.
# O City é produzido em outras sete plantas da marca japonesa no mundo: Tailândia, Filipinas, Malásia, Índia, Paquistão, China e Turquia.
Ficha técnica
Honda City EXL 1.5 16V
Motor: Álcool e gasolina, transversal, 1.496 cm³, quatro cilindros em linha, 16 válvulas e comando variável de válvulas. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio automático com cinco marchas à frente e uma a ré com opção de mudanças manuais sequenciais na manopla ou através de borboletas atrás do volante. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 115 cv com gasolina e 116 cv com álcool a 6 mil rpm.
Torque máximo: 14,8 kgfm com gasolina e álcool a 4.800 rpm.
Diâmetro e curso: 73,0 mm X 89,4 mm. Taxa de compressão: 10,4:1.
Freios: Dianteiros e traseiros a discos sólidos. ABS com EBD de série na versão.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Traseira por eixo de torção, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Não oferece controle de estabilidade.
Pneus: 185/55 R16 com rodas de liga leve aro 16. Estepe 175/65 R15, com rodas de aço aro 15.
Carroceria: Sedã em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 4,40 metros de comprimento, 1,69 metro de largura, 1,48 metro de altura e 2,55 metros de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal de série.
Bitola: 1,47 metro na dianteira e 1,45 m na traseira.
Peso: 1.178 kg em ordem de marcha.
Capacidade do porta-malas: 506 litros.
Tanque de combustível: 42 litros.
Produção: Sumaré, São Paulo.
Lançamento no Brasil: Junho de 2009. Lançamento mundial: Outubro de 2008.
Ponto a ponto
Desempenho – Os 115 cv do motor 1.5 16V do Honda City até dão conta do recado, mas o desempenho é claramente prejudicado pelo câmbio automático de cinco velocidades. Mal escalonado, ele abusa dos delays e buracos, principalmente entre a terceira e a quarta marchas. Com isso, as acelerações são apenas razoáveis, com um zero a 100 km/h em 11,7 segundos. O torque só disponível em 4.800 giros é outro complicador para as retomadas. O motor demora a encher e o que se tem é um 60 km/h a 100 km/h em quarta em 9,3 segundos. O melhor mesmo é apelar para as mudanças sequenciais nas borboletas atrás do volante. Nota 6.
Estabilidade – O sedã é um carro bem equilibrado, tanto nas retas como nas curvas. A carroceria torce dentro da normalidade e nas freadas bruscas o modelo mergulha pouco, fruto da suspensão bem acertada. Nas curvas, só mesmo entrando de forma agressiva é que o modelo faz menção de jogar a traseira. Em retas, acima dos 160 km/h surge uma sensação de flutuação, mas nada que assuste de fato. Nota 7.
Interatividade – O quadro de instrumentos do City é objetivo e de fácil visualização. A ergonomia é eficiente na maior parte do tempo, com volante multifuncional e a maioria dos comandos ao alcance das mãos e dos olhos do motorista, com destaque para o paddle shift disponível na versão. Os botões do ar são pouco intuitivos. O banco e o volante oferecem ajustes de altura e de profundidade, com bom ângulo de variação. A dirigibilidade é boa na maior parte do tempo e só mesmo a visibilidade traseira é prejudicada pelas largas colunas de trás. Nota 8.
Consumo – Com álcool, o modelo avaliado fez a sofrível média de 5,8 km/l em percurso 2/3 urbano e 1/3 rodoviário. Nota 6.
Tecnologia – É um carro de projeto recente, de 2008, que usa muitos elementos da plataforma do monovolume Fit. O motor 1.5 é moderno e conta com comando variável de válvulas. A suspensão traseira, porém, é por barra de torção, enquanto muitos modelos já passaram a adotar sistema independente. Como itens de segurança, o City só oferece airbag duplo de série – o ABS é de série nas versões intermediária e top. Os itens de conforto são os previsíveis para quem quer brigar no segmento de compactos premium. Nota 7.
Conforto – Para um compacto, o modelo oferece um espaço normal para pernas, enquanto o vão para cabeças é mais generoso. O isolamento acústico se mostra eficiente até 130 km/h, quando os barulhos do motor começam a ser percebidos no habitáculo. A suspensão, por sua vez, filtra bem as irregularidades da pista. Nota 7.
Habitabilidade – O modelo oferece um generoso porta-malas de 506 litros, maior mesmo que o do Civic. Os acessos são facilitados pela boa abertura das portas. Os porta-objetos são práticos, mas o número é reduzido. Nota 7.
Acabamento – A Honda, que sempre prima neste quesito, desafinou com o City. Em nada lembra seus companheiros de vitrine, Fit, Civic, CR-V e Accord. Os materiais usados nos painéis e forrações deixam a desejar em termos de beleza e aparentam uma qualidade inferior, não sendo agradáveis ao toque ou aos olhos. O banco de couro e os detalhes cromados são os únicos suspiros de requinte. Pior mesmo é o acabamento do porta-malas, cheio de rebarbas e com uma insólita placa de fibra de madeira prensada no fundo, com aparência de improvisada, que cobre o estepe. Nota 6.
Design – O sedã adotou um desenho interessante, com grade frontal em “V” que combina com o conjunto ótico, enquanto o estilo da traseira é um pouco mais sóbrio, com lanternas trapezoidais. Mas no conjunto, o City se mostra um modelo com uma dose certa de arrojo e com traços angulosos. Nota 8.
Custo/benefício – É difícil justificar o preço de um compacto que custa mais que sedãs médios e nem é tão bem acabado. É o que acontece com a versão avaliada, que, com preço de R$ 71.095, fica mais caro que modelos automáticos do Mégane Dynamique 2.0 16V e chega a ficar muito próximo do que Corolla XEi automático e até mesmo que o Civic LXS automático, todos maiores e com motores mais potentes. Nota 5.
Total – O City EXL 1.5 16V automático somou 67 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - O reverso da fama
O City EXL 1.5 16V automático impressiona antes mesmo de se entrar no carro. Afinal, é preciso ter coragem para pagar mais de R$ 70 mil em um compacto, mais salgado que a maioria dos sedãs médios com equipamentos semelhantes. A outra impressão negativa é quando se entra no modelo. O City não herda o acabamento primoroso que vem acalentando o sonho da Honda de se tornar a BMW do Oriente. Os materiais não transmitem qualquer requinte. Além do desenho controverso, há abuso de plásticos e a maioria das texturas desagrada ao tato. Para completar, o revestimento do porta-malas é tosco. Há um painel de fibra de madeira prensada coberta por um carpete com recortes grosseiros e rebarbas aparentes.
O melhor mesmo é esquecer as falhas no acabamento e ver do que o motor 1.5 16V de 116 cv é capaz. E mais uma vez o City decepciona. Nem tanto pelo propulsor, mas pela transmissão automática. Ou seja, motor e câmbio parecem não se harmonizam. Há buracos entre as marchas, especialmente entre terceira e a quarta, que tiram a agilidade do modelo. Além disso, as arrancadas não são muito vigorosas e o modelo demora a responder às investidas no acelerador.
O motor só desenvolve mesmo depois dos 4.800 giros, o que prejudica bastante as retomadas de velocidade. Em drive, o modelo leva longos 10,9 segundos para fazer de 60 km/h a 100 km/h. O jeito é apelar para o modo sequencial, que otimiza um pouco o desempenho do City e dá ao motorista mais de ingerência sobre as mudanças de marcha. A mesma retomada em quarta, por exemplo, consumiu 9,3 segundos. Com paciência, é possível alcançar a máxima de 175 km/h.
Em velocidades altas, o modelo mostra virtudes. A comunicação entre rodas e volante é bastante eficaz até os 160 km/h, quando surgem os primeiros sinais de flutuação da frente do sedã. Nas curvas, o modelo só faz menção de desgarrar mesmo em situações extremas, se mantendo no chão na maior parte do tempo. A suspensão bem calibrada mantém o modelo equilibrado nas arrancadas e nas freadas bruscas, quando o ABS e EBD, disponível na versão top, ajuda a manter o modelo na trajetória. Susto mesmo só na hora de abastecer. O carro avaliado fez a média de 5,8 km/l com trajeto 2/3 na cidade e o restante na estrada.