Curto e grosso
O pequeno cupê BMW 135 Ci traz uma instigante mistura de desempenho brutal e sutileza tecnológica
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
No seleto mercado brasileiro das marcas de luxo, a quantidade de unidades vendidas é pequena, mas a oferta nem sempre é enxuta. Prova disso é que as montadoras que atuam no segmento costumam trazer a maior variedade possível de modelos para o mercado brasileiro. Afinal, buscar um diferencial nos nichos que se criam entre os fabricantes premium é essencial. E o BMW 135 Ci cumpre uma tarefa bem específica.
Derivação cupê da Série 1, a menor da linha da marca bávara, o modelo oferece um motor altamente potente justamente para se evidenciar no segmento. E até pelo preço de R$ 226 mil ele se distancia dos rivais naturais: o Mercedes-Benz CLC e o Volvo C30, que no Brasil têm propulsores menos potentes e preços menores. O mais próximo seria o Audi S3 TSI, mas a marca das argolas não importa esse modelo de 265 cv para cá.
A razão de tantos milhares de reais a mais começa sob o capô. É onde está abrigado o propulsor biturbo 3.0 litros com seis cilindros em linha, 24 válvulas e injeção direta de combustível. A unidade despeja generosos 306 cv de potência nas rodas traseiras do cupê a 5.800 rpm. E um robusto torque máximo de 40,7 kgfm desde os 1.300 até os 5 mil giros.
O motor trabalha com um câmbio automático de seis velocidades com opção de mudanças sequenciais manuais através de borboletas no volante – ou paddle shift. Tudo isso para mover um carro com pouco mais de 1,5 tonelada em ordem de marcha. O resultado dessa equação é uma impressionante relação peso/potência de 5,04 kg/cv.
Além de potência e torque hipertrofiados, o 135 Ci também abusa da tecnologia. A começar pelo eixo dianteiro em alumínio. Mais leve, ele compensa o peso do motor e ajuda o cupê a alcançar o equilíbrio perfeito na distribuição de peso do carro: 50% na dianteira e 50% na traseira. Além disso, o modelo possui uma suspensão com calibragem mais firme e diversos itens de segurança, como controles eletrônicos de estabilidade, tração e de frenagem em curvas, seis airbags – frontais, dianteiros laterais e do tipo cortina –, faróis bixênon autodirecionais, freios com ABS e EBD, entre outros.
Na parte de conforto, estão lá o ar automático dual zone, direção hidráulica, trio, computador de bordo, bancos dianteiros com regulagem elétrica, retrovisor eletrocrômico, sensores de chuva, de luminosidade e de obstáculos traseiros, revestimento em couro, ajustes de altura e de profundidade da coluna de direção, volante multifuncional, entre outros. Também estão disponíveis teto solar e rádio/CD/MP3 com disqueteira para seis discos, viva-voz Bluetooth e alto falantes Professional Logic 7. O modelo ainda vem com o sistema iDrive, o dispositivo da BMW que reúne diversas informações em uma tela LCD ao centro do painel.
Coerentemente com sua proposta arrojada, o desenho do 135 Ci também é bastante singular. Na frente, ostenta o visual da Série 1, com capô abaulado e rebaixado, faróis com contornos irregulares com extremidades pontudas e a tradicional grade bipartida da montadora alemã. De perfil, chama a atenção a linha de cintura elevada e reta. O caimento da terceira coluna, porém, remete a um sedã. A traseira também lembra um três volumes. A tampa do porta-malas tem corte abaulado e contornos arredondados, que quebram levemente o desenho das lanternas horizontalizadas. Ou seja, um estilo que passa longe do habitual dos cupês. Mais um diferencial para um BMW fora do comum.
Instantâneas
# O Série 1 Coupé foi lançado em 2007, três anos depois da estreia mundial do Série 1.
# Na Europa, o cupê é vendido nas configurações 125i, com 218 cv, 120d turbodiesel com 177 cv e 123d turbodiesel com 204 cv.
# No Brasil, a linha Série 1 é vendida também nas versões hatch 118i – R$ 95 mil – e 120i – R$ 119.800 –, 130i – R$ 209.900 – e 120i Cabrio – R$ 165.200.
# O Série 1 obteve cinco estrelas – pontuação máxima – nos testes do EuroNCAP, órgão que avalia a segurança de todos os veículos vendidos na Europa através de crash-tests.
# O 135 Ci tem garantia de dois anos.
Ficha técnica
BMW 135 Ci
Motor: Gasolina, transversal, 2.979 cm³, biturbo, seis cilindros em linha, quatro válvulas por cilindros e comando variável de válvulas. Injeção direta de combustível e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio automático com seis marchas à frente e uma a ré com opção de mudanças manuais sequenciais na manopla ou através de borboletas atrás do volante. Tração traseira. Controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 306 cv a 5.800 rpm.
Torque máximo: 40,7 kgfm entre 1.300 rpm e 5 mil rpm.
Diâmetro e curso: 89,6 mm X 84,0 mm. Taxa de compressão: 10,2:1.
Freios: Dianteiros e traseiros a discos ventilados. ABS , EBD, controle de frenagem em curvas e assistente de frenagem de emergência.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços triangulares transversais em alumínio, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira independente por braços múltiplos, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Controle eletrônico de estabilidade.
Pneus: 215/40 R18 na frente e 245/35 R18 atrás em rodas de liga leve.
Carroceria: Cupê em monobloco com duas portas e quatro lugares. Com 4,36 metros de comprimento, 1,74 metro de largura, 1,40 metro de altura e 2,66 metros de entre-eixos. Oferece airbags frontais, laterais dianteiros e do tipo cortina.
Peso: 1.565 kg em ordem de marcha.
Capacidade do porta-malas: 370 litros.
Tanque de combustível: 53 litros.
Produção: Alemanha.
Lançamento no Brasil: 2008. Lançamento mundial: 2007.
Ponto a ponto
Desempenho – A performance do BMW 135 Ci impressiona em todos os aspectos. Basta dar uma sutil pisada no acelerador para perceber a furiosa disposição do carrinho. O motor responde prontamente com acelerações vigorosas. O zero a 60 km/h é feito em 2,9 segundos e o zero a 100 km/h em 5,5 s. O torque máximo de 40,7 kgfm disponível já a partir dos 1.300 até os 5 mil giros agiliza as retomadas e o 60 km/h a 100 km/h em quinta foi feito em ótimos 4,2 s. Tal desempenho também é fruto de um casamento preciso entre o motor biturbo e a caixa de seis velocidades, sem delays ou imprecisões nas trocas de marcha. Nota 10.
Estabilidade – Dimensões enxutas, ótima rigidez torcional, peso concentrado no entre-eixos e diversos controles eletrônicos grudam o Série 1 Coupé no chão. O modelo torce muito pouco nas curvas e não faz qualquer menção de rolagem. A suspensão trabalha bem nas arrancadas e freadas bruscas e o 135 não levanta em demasia a frente, tampouco mergulha nas paradas bruscas, quando o ABS e o EBD ajudam a manter o modelo sob o controle do condutor. Nas retas, a comunicação entre rodas e a direção pede ligeira correção – mas apenas acima dos 200 km/h. Nota 10.
Interatividade – A maioria dos comandos dentro do cupê da BMW são intuitivos, ao alcance dos olhos e mãos do motorista. O modelo oferece ajustes dos bancos e da coluna de direção, mas a regulagem do assento obriga o motorista a abrir a porta ou espremer a mão. O volante firme, preciso e com boa pegada privilegia a proposta esportiva do 135 Ci. O quadro de instrumentos oferece visualização clara e objetiva. Já a visibilidade, tanto traseira como lateral, é prejudicada pelas largas colunas centrais e traseiras. Nota 8.
Consumo – O modelo avaliado fez a média de 7,4 km/l de gasolina, com uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada. Bebe bem, mas dentro do previsto para um motor turbo com 310 cv e transmissão automática. Num uso mais urbano, com o turbo pouco exigido, alcançou médias de surpreendentes 11 km/l. Nota 7.
Tecnologia – Como é usual nos modelos da BMW, o 135 não economiza tecnologia. O modelo dispõe de controles de estabilidade, tração e de frenagem em curvas, freios com ABS e EBD, faróis bixênon direcionais, eixo dianteiro em alumínio, suspensão esportiva, sensor de obstáculos, além de um motor de 306 cv e uma transmissão de seis velocidades com paddle shift. Bastante coisa para um carrinho tão “mignon”. Nota 9.
Conforto – Trata-se de um quesito sempre complicado em um cupê esportivo. E com o 135 Ci não é diferente. O carro veste bem o motorista e o passageiro, mas sem sobras para cabeças e pernas. Atrás, o vão para cabeças é pior e só mesmo dois adultos de estatura mediana conseguem viajar sem grandes apertos. A suspensão também privilegia a condução esportiva, mais rígida. E acaba ficando mais vulnerável ao depreciado asfalto das grandes cidades brasileiras. O isolamento acústico, em contrapartida, é eficiente mesmo em velocidades altas. Nota 8.
Habitabilidade – Apesar da porta pequena para um cupê, entrar no 135 Ci não é tarefa fácil devido à baixa altura do modelo. Para quem vai acessar o banco de trás, a situação é pior. Ou seja, como todo cupê, o modelo da BMW é aquele típico carro aconselhável para duas pessoas apenas. Mesmo assim, o porta-malas de 370 litros impressiona para um cupê. Nota 7.
Acabamento – Os materiais empregados no Série 1 Coupé esbanjam bom gosto, requinte e exatidão. Os revestimentos de painéis e portas beiram a perfeição e os encaixes e fechamentos são precisos. Nota 10.
Design – O estilo arrojado da Série 1 fica em evidência na configuração 135 Ci, com os faróis angulosos e o capô baixinho. De perfil, a ousadia fica por conta do caimento, que mais parece com um sedã. Nota 9.
Custo/benefício – Desembolsar R$ 226 mil em um cupê médio é para poucos. E o 135 Ci está sozinho neste nicho no mercado brasileiro. Seus concorrentes seriam o Mercedes CLC e o Volvo C30 T5, mas ambos têm motores bem menos potentes e custam abaixo de R$ 120 mil. O Audi S3 TFSI 2.0 de 265 cv não é importado. Nota 7.
Total – O BMW 135 Ci somou 85 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - O dom da fúria
É possível desconfiar do BMW 135 Ci. Afinal, o Série 1 é o menor modelo da marca bávara, o que pode camuflar as pretensões esportivas do carrinho. Mas os preconceitos e estereótipos caem por terra logo ao ligar o carro. Ou melhor, caem nos ouvidos. O som dos 306 cv do motor turbo do 135 Ci evolui de forma grave e consistente. E o ponteiro do conta-giros no quadro de instrumentos parece “reger” a evolução desse som rouco, como a batuta de um maestro. Impõe respeito instantâneo. Se ainda sobrava alguma dúvida quanto à performance do modelo, ela desaparece ao se pisar no acelerador. O corpo do motorista é projetado imediatamente para trás e o cupê mostra de cara do que é capaz.
Ao ser acelerado, o carro simplesmente “devora” a estrada. Resultado de um invejoso conjunto que combina, além de um motor potente, tração traseira, uma relação peso/potência de 5,04 kg/cv e uma transmissão de seis velocidades muito bem calibrada, que trabalha de forma ágil as mudanças de marchas, sem delays. O que gera um zero a 100 km/h em curtos 5,5 segundos e faz o modelo alcançar facilmente a máxima de 250 km/h, limitada eletronicamente.
A boa vontade do 135 Ci também pode ser conferida na hora das ultrapassagens. O torque de 40,7 kgfm já disponível a partir das 1.300 rotações mantém o motor sempre cheio, beneficiando as retomadas de velocidade. Na serra, o modelo também usufrui do bom torque e do câmbio bem escalonado, sem imprecisões entre uma marcha e outra. Mas o bacana mesmo é apelar para as mudanças nas borboletas do volante e se divertir com o desempenho do cupê.
A eletrônica embarcada do modelo, a distribuição de peso 50/50 e um jogo de suspensão muito bem acertado, por sua vez, conferem uma estabilidade quase diabólica – ou quase divina, dependendo do jeito de olhar. O carro não faz menção de jogar a traseira, nem torce demais a carroceria. Apenas nas retas acima de 200 km/h é que surge uma leve sensação de flutuação, providencial para alertar o motorista de que está num carro, não num foguete. Mas nada assustador. Desconforto mesmo é o espaço reduzido para pernas e cabeças, algo normal em um cupê. A suspensão mais rígida, boa para a condução mais arrojada, entrega a conta na hora de trafegar pelas esburacadas ruas brasileiras. O carro “bate” nos buracos, não filtra as irregularidades e os sacolejos são sentidos no habitáculo.
O consumo é o esperado para tamanha vontade esportiva: 7,4 km/l em uso 2/3 urbano.