Perpetuação da espécie
Reestilização na Ranger ajuda pick-up média da Ford a reagir nas vendas no mercado nacional
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Na indústria brasileira, é comum automóveis de passeio se perpetuarem por mais de uma década na base de meras reestilizações visuais. Pick-ups, como a Ford Ranger, trilham o mesmo caminho. É verdade que o tempo de vida de uma plataforma de comercial leve normalmente é mais longo, 10 anos em média. Só que a pick-up média produzida na Argentina está com 15 anos de vida e só agora passou por uma remodelação extensa, mas que se concentrou apenas no visual. O suficiente, no entanto, para a Ranger esboçar uma reação. O modelo, que antes mantinha médias de 700 unidades, passou de mil emplacamentos em setembro. E também em outubro.
E, como a eterna rival General Motors, a Ford divide a linha entre uma enormidade de configurações. São 18, entre versões de acabamento, cabines simples e dupla, tração 4X2 e 4X4 e motor diesel ou a gasolina. Desde opções de entrada com motor a gasolina, com preços abaixo de R$ 50 mil e faceta mais proletária, até modelos topo de linha com propulsor turbodiesel, tração 4X4 e apliques arrojados para agregar requinte à gama. É onde se encaixa a Limited. Ela recebe uma boa lista de itens de série, além de detalhes visuais cromados, e inevitavelmente é a mais cara, partindo de R$ 96.730. Mesmo assim, responde por pouco mais de 10% das vendas da Ranger no país.
A Limited carrega o propulsor mais potente da linha. Trata-se do 3.0 diesel da MWM International com turbo de geometria variável com intercooler, injeção direta, 163 cv de potência a 3.800 rpm e um torque máximo de 38,7 kgfm já disponível a partir dos 1.600 giros até as 2.350 rotações. O propulsor trabalha com a transmissão manual da Eaton de cinco marchas e tração traseira com acoplamento de tração nas quatro rodas e reduzida, além de diferencial traseiro com escorregamento limitado.
A versão mais elitizada da Ranger também é a mais equipada. E a que recebeu mais itens na reestilização promovida em julho. Sistema de som Connection com rádio/CD/MP3 com entrada auxiliar, USB e Bluetooth, sensores de obstáculos traseiros, alarme, computador de bordo, travamento automático das portas, entre outros. Além disso, o modelo vem com os previsíveis ar-condicionado, direção hidráulica, trio elétrico com vidro com sistema um toque e anti-esmagamento, banco do motorista e volante com ajustes de altura, revestimento em couro, faróis de neblina e rodas de liga leve aro 16 calçadas com pneus todo terreno.
Ao mesmo tempo, é a única versão da pick-up da Ford a ter airbag duplo e freios com ABS e EBD de série – itens opcionais nas demais configurações. E também a que tem um apelo estético esportivo. Há cromados no santantônio, na grade frontal, nos para-choques e nas carcaças dos retrovisores, além de capota marítima, estribos laterais e protetor de caçamba. Tudo dentro da plástica nada tímida que a Ranger recebeu e que a deixou alinhada com a proposta visual da marca, de origem norte-americana, chamada Bold Design. O conjunto ótico foi redimensionado, com faróis mais proeminentes e com duplos refletores. Além da generosa grade com grossas barras horizontais que remetem a modelos como o sedã Fusion e o crossover Edge.
Desta forma, a Limited se credencia para brigar com rivais bem equipados e dotados de motor turbodiesel, tração 4X4 e cabine dupla como Chevrolet S10 Executive 2.8 – R$ 96.591 –, Nissan Frontier SE – R$ 97.890 –, Toyota Hilux SR 3.0 – R$ 101.300 – e Mitsubishi L200 Triton 3.2 – R$ 110.170. Oferece alguns itens a mais que as rivais, como o sistema de som com Bluetooth. Mas é, ao lado do modelo da GM, o projeto mais antigo. Fato, agora, atenuado pelo visual arrojadinho. Que ajuda a aumentar as vendas de toda a linha Ranger, mas que ainda não foi suficiente para a pick-up galgar posições no segmento. Com médias de 890 unidades ao mês no ano, continua atrás de S10, Hilux e L200, que anotam respectivas vendas de 3.100, 2.600 e 1.600 mensais.
Instantâneas
# A Ford Ranger foi lançada no Brasil em 1994, importada dos Estados Unidos. Em 1998, passou a ser feita em Pacheco, na Argentina, de onde é importada até hoje.
# Em 2004, a pick-up média da Ford sofreu uma leve reestilização.
# O modelo começou a ser vendido no Brasil apenas na configuração cabine simples. A cabine estendida surgiu em 1997 e a dupla chegou em 2000, enquanto a estendida saiu de linha.
# A linha 2010 da Ranger passou a oferecer três anos de garantia.
# A Ford tem atualmente 390 revendas de automóveis e de comerciais leves no país.
# Graças ao novo para-choque em aço estampado, mais retilíneo e cavado, a Ranger conseguiu aumentar o seu ângulo de ataque de 30 graus para 34 graus.
# Além da Limited, atualmente a pick-up é vendida em versões XL, XLS e XLT, com motores diesel ou gasolina, cabines simples ou dupla e tração 4X2 ou 4X4.
Ficha técnica
Ford Ranger Limited 3.0 Turbodiesel
Motor: Diesel, dianteiro, longitudinal, 2.968 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando duplo de válvulas no cabeçote. Injeção direta de combustível, acelerador eletrônico e turbo de geometria variável com intercooler.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração traseira com engate de tração 4X4, reduzida e diferencial traseiro com escorregamento limitado. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 163 cv a 3.800 rpm.
Torque máximo: 38,7 kgfm entre 1.600 e 2.350 rpm.
Diâmetro e curso: 87,5 mm x 94,0 mm. Taxa de compressão: 17,0:1.
Suspensão: Dianteira independente com braços duplos, barras de torção, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e eixo autodeslizante. Traseira por eixo motriz, com molas semi-elípticas e amortecedores hidráulicos. Não oferece controle de estabilidade.
Freios: A discos ventilados na frente e tambores atrás. Oferece ABS com EBD nesta versão de série.
Pneus: 245/70 R16 AT na frente e atrás em rodas de liga leve.
Carroceria: Pick-up cabine dupla sobre longarinas, com quatro portas e cinco lugares. Com 5,14 metros de comprimento, 1,79 m de largura, 1,76 m de altura e 3,19 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal de série na versão.
Peso: 1.999 kg em ordem de marcha, com 1.058 kg de carga útil.
Capacidade da caçamba: 844 litros.
Tanque de combustível: 75 litros.
Capacidade off-road: Ângulo de ataque de 32º, ângulo de saída de 29º e altura livre do solo de 35,9 cm.
Produção: Pacheco, na Argentina.
Lançamento no Brasil: 1994 importada dos Estados Unidos, 1998 importada da Argentina.
Ponto a ponto
Desempenho – A pick-up mostra ímpeto logo na primeira pisada no acelerador. Os 163 cv do motor turbodiesel aparecem rápido e o zero a 100 km/h é conseguido em 13,1 segundos. Tempo razoável para uma pick-up com duas toneladas. O torque de 38,7 kgfm oferecido a partir de 1.600 giros contribui para o bom desempenho, principalmente nas retomadas, com prontas respostas ao pedal do acelerador. O conjunto também garante a força necessária para a Ranger, com o 4X4 engatado, enfrentar trechos de lama pesada. Nota 8.
Estabilidade – Fazer uma curva com uma pick-up sempre inspira cuidados, devido às dimensões generosas e ao peso excessivo do modelo. Mas só mesmo entrando de forma abusada nas curvas é que a Ranger faz menção de jogar a traseira e torce bem a carroceria. Uma “torção” que se faz necessária para o modelo ter uma boa flexibilidade e copiar bem as irregularidades de ondulações e buracos no off-road. Em condições civilizadas de condução, o modelo não prega maiores sustos. Nas retas, uma sensação de flutuação surge perto dos 150 km/h e nas freadas o modelo mergulha um pouco, mas o ABS e EBD ajudam o motorista a manter o domínio sobre o veículo. Nota 7.
Interatividade – A ergonomia da Ranger deixa a desejar com os comandos do rádio, do ar e dos faróis, mal posicionados e pouco intuitivos. Pelo menos, a posição de dirigir é facilitada pelos ajustes de altura do banco e da coluna de direção – esta com bom ângulo de regulagem. Mas o volante peca por não ter simples apoios para os polegares. O quadro de instrumentos é de fácil visualização, embora o computador de bordo não se mostre tão claro. O câmbio tem engates duros e imprecisos. A visibilidade é facilitada pelos generosos retrovisores externos e o sensor de obstáculos traseiro ajuda na hora de estacionar. Nota 6.
Consumo – A Ranger testada fez a média de 10,1 km/l com diesel em percurso 2/3 na cidade, 1/3 na estrada, incluindo pequenos trechos off-road. Nota 8.
Conforto – O espaço para pernas é bom na frente mas, como na grande maioria das pick-ups médias, a parte de trás dispõe de vão limitado para acomodar os joelhos. Longarinas e amortecedores de longo curso não ajudam o modelo a filtrar os buracos, mas são flexíveis e fundamentais para os desníveis do fora de estrada. Nota 7.
Tecnologia – Normalmente a geração de uma pick-up ou SUV em longarina dura até uma década. O modelo da Ford, porém, já tem 15 anos de estrada e só o câmbio Eaton e o motor turbodiesel são mais recentes. A versão Limited conta com ABS, airbag duplo e sistema de som igual ao do Focus, com viva-voz Bluetooth e entrada USB. Nota 6.
Habitabilidade – Os estribos da versão top facilitam o acesso ao interior da Ranger, mas o vão das portas de trás é bastante estreito e obriga os ocupantes a contorcionismos. Também falta uma alça de apoio nas colunas, para facilitar a subida. A caçamba oferece bons 844 litros e condiz com o segmento. Nota 6.
Acabamento – Na carona da reestilização, a Ford mudou a cor do painel. E só. A Ranger oferece um acabamento apenas honesto, com abuso de contornos arredondados. Só que alguns encaixes apresentam falhas e há sinais de rebarbas nas forrações das portas. Nota 6.
Design – A reestilização não foi tímida e é capaz de dar uma sobrevida à pick-up, além de alinhá-la com a identidade visual da marca mundo afora. Está longe de ser uma unanimidade, mas a imponente grade cromada e o novo conjunto ótico conferem modernidade e robustez. Nota 8.
Custo/Benefício – A Limited oferece a lista de itens mais completa da linha por R$ 96.730. Fica apenas um pouco mais cara que a S10 similar e mais em conta que todas as versões de Frontier, Hilux e L200 Triton com nível de equipamentos parecido. Nota 8.
Total – A Ford Ranger somou 70 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Virtuais novidades
O indefectível ronco metálico do motor turbodiesel da Ford Ranger Limited é sempre uma sugestão de bom desempenho à vista. E a reestilizada pick-up média argentina continua a agradar nesse quesito. Basta engatar a primeira marcha e pisar no acelerador para obter respostas imediatas do propulsor de 163 cv. O motor enche rápido e mostra ímpeto. O câmbio oferece relações curtas, mas o motor é pouco elástico e tem subida de giro lenta, normal em um veículo deste porte. De qualquer forma, a transmissão acertada e o torque de 38,7 kgfm disponível já nas 1.600 rpm favorecem ainda mais a performance da Ranger, seja nas arrancadas, em trechos de subida ou nas retomadas de velocidade.
Com isso, a Ranger oferece números interessantes para um modelo com quase duas toneladas. Sair da inércia e alcançar os 100 km/h consumiu 13,1 segundos e a retomada de 60 km/h a 100 km/h em quarta foi feita em 8,9 segundos. Com o pé no fundo foi possível colocar o ponteiro do velocímetro na máxima de 170 km/h. No fora de estrada, a mesma eficiência. Com a 4X4 engatada, a Ranger enfrentou bem trechos com terra, buracos e subidas íngremes. Na lama menos convidativa, a reduzida e o motor potente deram conta do recado.
Mas como toda pick-up, a Ranger foi feita para andar civilizadamente. A comunicação entre rodas e volante começa a ficar comprometida um pouco antes dos 150 km/h, quando o modelo passa a flutuar e balançar bastante. Nas curvas, em velocidades normais, torce a carroceria dentro do esperado e não faz qualquer menção de desgarrar da pista. Só mesmo entrando agressivamente é que se tem uma perda de aderência. Nas freadas, o ABS e EBD ajudam a manter a Ranger na trajetória. A suspensão com curso longo – indispensável em uma pick-up – inevitavelmente faz a dianteira levantar além da conta nas arrancadas e mergulhar um pouco nas freadas.
Por dentro, a Ranger oferece uma boa posição para dirigir, visibilidade eficiente e o sempre bem-vindo sensor de obstáculos para a hora de estacionar um veículo tão grande. A ergonomia é falha, com comandos pouco intuitivos e que exigem desvios de atenção e do corpo do motorista. O câmbio, por sua vez, merecia engates mais precisos e suaves. Mas o consumo é bem decente, com uma média de 10,1 km/l com uso 2/3 urbano e 1/3 rodoviário.