Força oculta
Ford Focus hatch tem plataforma moderna e preço competitivo, mas vendas ainda não deslancharam
AutoPress
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Em um país carente de automóveis realmente novos e modernos, o Ford Focus destaca-se pela tecnologia. Tem a plataforma mais moderna no segmento – datada de 2004 –, que é compartilhada não só pelo seu similar europeu, como também pelos Volvo C30, S40 e V50. Além disso, a nova geração do dois volumes chama a atenção pelo visual arrojado e por uma boa lista de equipamentos. Virtudes, porém, que ainda não foram suficientes para alterar significativamente a média de vendas do hatch médio no mercado brasileiro.
Nesses seis meses de nova geração, o dois volumes registrou média mensal de 1.130 unidades, quase igual às 1.100/mês que a antiga versão registrava até 2008. E a geração antecessora ainda é comercializada, apenas com motor 1.6 flex e por preços entre R$ 43 mil e R$ 49 mil. Com isso, responde por 60% das vendas totais do hatch hoje. O modelo atual, por sua vez, começa com preços a partir de R$ 54 mil e, sabe-se lá por que, ainda não oferece tecnologia flex no motor 2.0 16V.
Uma ausência curiosa, já que, logo após o lançamento da nova geração do Focus, em setembro do ano passado, o EcoSport passou a receber álcool no mesmo motor 2.0 16V que equipa o novo hatch. No Focus, são 145 cv a 6 mil giros e torque de 18 kgfm aos 4.500 rpm. A Ford, contudo, deve dotar a nova geração de motor 1.6 flex ainda este ano para baratear o modelo. Antes disso, porém, o propulsor 2.0 16V vai se tornar flex dentro da linha, muito provavelmente neste primeiro semestre do ano. Um detalhe curioso é que a unidade de força movida a gasolina é a mesma que equipa o seu companheiro de plataforma Volvo C30.
Na filosofia centenária da marca norte-americana, o novo Focus tem apenas duas configurações de acabamento: GLX ou Ghia. Ambas com opção de transmissão mecânica ou automática. E é a top de linha Ghia que ajuda a Ford a manter a regularidade, com 60% das vendas, apesar de ser a mais cara. Custa R$ 65.890 na versão mecânica. Fica perto dos principais rivais top com os mesmos itens, só que a configuração mais completa do Focus oferece equipamentos que dificilmente são encontrados nos topo de linha concorrentes. Exemplos são a partida através de um botão no console central e o sistema de conectividade por comando de voz. Basta falar um comando para acionar o rádio/CD/MP3 com entrada USB, o sistema de telefonia Bluetooth e o ar-condicionado automático com dual zone.
No mais, todas as versões do Focus contam com itens de segurança como airbag duplo frontal, freios com ABS, EBD e controle de frenagem em curvas e regulagem de altura dos faróis. No conforto, previsíveis ar, trio elétrico, regulagem de altura e de profundidade do volante. Na Ghia, bancos de couro, sensor de obstáculos, controle de cruzeiro, banco do motorista com regulagem elétrica de altura e retrovisores aquecidos. Esteticamente, rodas de liga leve aro 16, teto solar e faróis de neblina. Já a direção eletro-hidráulica, implantada na nova geração, conta com três modos de condução: Normal, Conforto – mais suave – e Esporte – que deixa o volante mais firme.
No design, o Focus também teria tudo para se destacar no segmento de hatchs médios. O modelo adotou o mesmo desenho do similar europeu, que aderiu ao Kinetic, nova proposta de design da montadora que privilegia linhas angulosas e limpas. O que também não bastou para ajudar o Focus a ganhar participação em seu segmento. Além da estranha ausência de motores flex, exigidos pela maior parte dos consumidores brasileiros, outro fator ajuda a explicar porque o hatch ainda é tão pouco reconhecido: foi totalmente ignorado pelo marketing da Ford. Desde o lançamento do novo Focus, a marca optou por concentrar seus esforços de propaganda apenas na versão sedã. Que, por sinal, vende menos que o hatch: média de apenas 716 unidades mensais esse ano.
Instantâneas
# A plataforma do novo Ford Focus também serve ao Mazda 3 – montadora japonesa associada à holding norte-americana.
# Na Europa, o Focus é vendido nas configurações cupê duas portas, cupê-conversível e station wagon. Todos saem de fábrica com airbags frontais, laterais dianteiros e do tipo cortina na frente e atrás e controles eletrônicos de estabilidade e de tração.
# No mercado europeu, o hatch médio da Ford é comercializado com motor gasolina 1.4 Duratec de 80 cv e propulsores diesel Duratorq 1.6 de 90 cv e 109 cv, e 2.0 de 136 cv.
# O novo Focus também é vendido no Brasil nas versões sedã GLX e Ghia.
# A nova geração do médio é feita na Argentina e em mais oito plantas da Ford no mundo: Espanha, Alemanha, África do Sul, China, Vietnã, Taiwan, Filipinas e Rússia.
# Para o novo Focus, a marca norte-americana investiu US$ 170 milhões na planta de Pacheco e a capacidade de produção na Argentina foi elevada de 120 para 200 unidades/dia.
# Na Europa, o Focus tem duas versões esportivas. A ST com motor 2.5 de 220 cv e a RS com 305 cv. A montadora estuda trazer a ST para o brasil este ano.
Ficha técnica
Ford Focus hatch Ghia 2.0 16V
Motor: Gasolina, dianteiro, transversal, 1.999 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro e comando de admissão variável. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual com cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle eletrônico de tração.
Potência máxima: 145 cv a 6 mil rpm.
Torque máximo: 18,9 kgfm a 4.500 rpm.
Diâmetro e curso: 87,5 mm X 83,1 mm. Taxa de compressão: 10,8:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos. Traseira independente em braços múltiplos, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e atrás. ABS, EBD e controle de frenagem em curvas de série.
Carroceria: Hatch em monobloco com quatro portas e cinco lugares. 4,35 metros de comprimento, 1,84 metro de largura, 1,50 metro de altura e 2,64 metros de distância entre-eixos. Airbag duplo frontal de série. Não oferece airbags laterais ou do tipo cortina.
Peso: 1.344 kg em ordem de marcha, com 444 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 328 litros.
Capacidade do tanque de combustível: 55 litros.
Ponto a ponto
Desempenho – Disposição não falta ao Focus. Basta pisar no pedal do acelerador que o conta-giros sobe com vontade. As arrancadas, porém, não são mais “espertas” por conta do escalonamento do câmbio manual. As relações entre primeira e segunda e segunda e terceiras marchas são um pouco abertas. Mas nada que desabone o desempenho do Focus. O hatch pega embalo e alcançar a máxima de 200 km/h é questão de tempo. Nas retomadas, o torque de 18 kgfm garante ultrapassagens seguras. Nota 8.
Estabilidade – O Focus parece grudado no chão, tanto ao entrar em curvas como em retas em altas velocidades. A carroceria não desgarra, o modelo não faz menção de jogar a traseira e a comunicação entre volante e rodas se mostra precisa mesmo próximo da máxima. Nas freadas bruscas, a suspensão bem acertada segura bem o hatch, que não mergulha. Nota 9.
Interatividade – A ergonomia é bem acertada. A maioria dos comandos do Focus são bem intuitivos e práticos. Na versão Ghia, a ergonomia ainda é apoiada pelo comando de voz para som, telefonia e ar-condicionado, e pelo sistema de ignição através de um botão no console central. A direção eletro-hidráulica conta com três modos de condução: normal, conforto – mais suave – e esporte – que a deixa mais firme. A visibilidade, contudo, é falha, já que as colunas centrais e traseiras são largas. Pelo menos a configuração top do médio tem sensor de obstáculos traseiros, sempre bem-vindo na hora de estacionar. Nota 9.
Consumo – O modelo testado assinalou a média de 7,3 quilômetros por litro de gasolina, em uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada. Apenas razoável. Nota 6.
Conforto – Há bom espaço para pernas e ombros para todos os passageiros e atrás dois adultos e uma criança viajam sem grandes apertos. O espaço para cabeças para quem está nos bancos traseiros, porém, deixa a desejar. Nas pontas, pessoas com mais de 1,70 m de altura tendem a raspar a cabeça, ainda mais na versão com teto solar, devido ao forro rebaixado do teto. Já o isolamento acústico é perfeito e não se percebe barulho do motor e de rodagens dentro do habitáculo. A suspensão firme fica vulnerável em buracos mais “sinistros”. Nota 7.
Tecnologia – A nova geração do Focus adotou uma plataforma nova, de 2004, a mesma usada pelo médio na Europa. Além disso, todas as versões do hatch saem com freios com ABS, EBD e controle de frenagem em curvas, airbag duplo e sensor de estacionamento. A versão Ghia ainda recebe partida sem chave e sistema de comando de voz para Bluetooth, som e ar . O motor 2.0 16V também é moderno, mas carece de tecnologia flex. Nota 8.
Habitabilidade – A quantidade de porta-objetos dentro do Focus é apenas razoável e os 328 litros do porta-malas estão condizentes com o segmento. As portas são amplas, mas os acessos atrás são prejudicados pela pequena altura. Nota 6.
Acabamento – Na nova geração, a Ford quis requintar um pouco mais o Focus e conseguiu. Não que o acabamento seja de extremo luxo, mas os materiais empregados aparentam qualidade e agradam aos olhos e ao tato. Mesmo assim, relaxaram nos fechamentos e há pequenas falhas nos encaixes no forro do teto. Nota 7.
Design – O primeiro Focus já era ousado ao adotar o conceito de design New Edge. A nova geração aprimorou o arrojo das linhas e adotou a nova escola da marca, a Kinetic, com linhas limpas e definidas. O desenho é o mesmo do Focus europeu. Nota 9.
Custo/benefício – O Focus Ghia 2.0 custa R$ 65.890. Só é mais barato que o Peugeot 307 Feline 2.0 16V – R$ 68.500 –, mas oferece itens interessantes, como comando de voz para ar, som e Bluetooth, direção eletro-hidráulica com três modos de condução e partida sem chave. Nota 8.
Total – O Focus Ghia 2.0 somou 77 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Foco na diversão
Antes mesmo de engatar a primeira marcha no Focus Ghia, é possível se divertir no hatch médio da Ford. A começar pela partida, que pode ser dada com a chave no bolso e ao se apertar o botão “Power” no console central. Depois, ao utilizar o comando de voz. Basta apertar o botão do sistema e falar pausadamente: “ar-condicionado, temperatura vinte e três graus”. Pronto, o ar é ligado e se ajusta à temperatura solicitada. Depois, aciona-se o comando novamente e solicita-se: “iniciar leitura do CD” para o disco começar a tocar.
Mas nem só de conectividade sobrevive um carro. Além dos mimos, o Focus também tem o bom motor 2.0 16V. E os 145 cv do propulsor não decepcionam. O escalonamento do câmbio esmorece um pouco as arrancadas, é verdade. As primeiras relações da transmissão mecânica são um pouco longas e é preciso pisar forte no acelerador e esticar as duas primeiras mudanças. Com isso, o zero a 100 km/h é feito em 10,7 segundos.
Superado o entrosamento falho entre motor e câmbio nas primeiras marchas, o Focus mostra desenvoltura depois dos 50 km/h. O câmbio de engates precisos ajuda o motorista a levar o hatch além. Outro bom aliado é a direção eletro-hidráulica ajustável. No modo “Esporte”, ela fica mais firme e privilegia uma condução mais interessante, principalmente em altas velocidades e nas curvas.
É nessa hora, aliás, que o Focus mostra uma de suas maiores virtudes: a estabilidade. O comportamento dinâmico do dois volumes é exemplar. Só mesmo quase na máxima de 200 km/h o modelo passa alguma sensação de flutuação. Nas curvas, a carroceria torce o mínimo e o modelo não faz qualquer menção de sair de frente. A suspensão bem trabalhada também deixa o Focus comportado nas arrancadas e nas frenagens bruscas.
Para o dia a dia da cidade, o Focus também se mostra um veículo interessante. A ergonomia é privilegiada com a maioria dos comandos ao alcance das mãos e a posição de dirigir é facilmente encontrada graças aos ajustes do volante e do banco. Na hora de estacionar, basta colocar a direção no modo “Conforto” para manobrar o modelo com desenvoltura. O sensor de obstáculos ajuda na tarefa de estacionar, já que o vidro diminuto e as largas colunas traseiras prejudicam a visibilidade.
No conforto, o que se espera de um hatch médio. Há bom espaço para pernas, mas os ocupantes de trás têm pouco vão para as cabeças, principalmente nas pontas. No consumo, em uso 2/3 na cidade e o restante na estrada, o modelo testado fez uma média apenas razoável para um carro a gasolina: 7,3 km/l. Isso, infelizmente, o comando de voz não altera.