Briga particular
Nova versão intermediária ajuda Corolla a aumentar as vendas e ultrapassar o arquirrival Civic
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
Na cultura japonesa, a paciência é uma grande virtude. E a Toyota precisou de uma boa dose dela para ver seu principal modelo no mercado brasileiro voltar à ponta. Nos últimos meses de 2009, o Corolla consolidou a liderança entre os sedãs médios, depois de muito tempo atrás de seu principal concorrente, o Civic. Em parte, é verdade, fruto de uma canibalização dentro da própria Honda após o surgimento do City. Mas também mérito de um posicionamento da linha Corolla bastante estratégico por parte da Toyota, que lançou a versão intermediária GLi, atualmente responsável por quase 30% das vendas do três volumes.
Com isso, além de desbancar seu rival, o sedã feito em Indaiatuba, São Paulo, ainda ultrapassou a marca de 7 mil unidades em dezembro e se tornou o nono carro mais vendido do país. O que confere à configuração GLi uma performance de mais de 2 mil unidades em dezembro e uma média de aproximadamente 1.200 unidades/mês desde sua chegada, em setembro. Um ótimo desempenho comercial para uma versão que chegou para ampliar a gama Corolla ao se posicionar entre a básica XLi – que começa em R$ 60.980 – e a outrora intermediária XEi – que parte dos 69.440.
Com isso, a GLi se posicionou justamente para atacar de frente a configuração LXS, que vem a ser a inicial do Civic – e deixou a básica XLi para brigar com o City. Para tal, a montadora lançou mão de uma lista de equipamentos para a nova configuração bem próxima de seu alvo. A começar pelos itens de segurança, que incluem airbag duplo e freios com ABS e EBD. Além disso, estão lá direção eletro-hidráulica, trio, rádio/CD/MP3, controle de cruzeiro, banco do motorista com ajuste de altura, para-sóis com espelhos iluminados, coluna de direção com regulagens de altura e de profundidade, entre outros.
O Corolla GLi automático custa R$ 69.760 – R$ 65.750 na versão manual –, um pouco mais barato que os R$ 70.830 do Civic LXS automático. E com a vantagem de oferecer, a mais, ar-condicionado automático – na versão do modelo da Honda o ar é manual –, comandos do som no volante, porta-malas mais espaçoso – 470 litros contra 340 litrosdo Civic – e computador de bordo. O rival, por sua vez, conta com paddle-shift para mudanças de marchas, suspensão traseira independente – a do Corolla é por eixo de torção –, uma estrutura que data de 2006 – a do Corolla é de 2002 e sofreu apenas alterações estéticas em 2008 – e transmissão de cinco velocidades.
O modelo da Toyota utiliza a veterana transmissão automática de quatro velocidades, porém, sem opção de mudanças sequenciais. O conjunto inclui o motor 1.8 16V VVT-i, com sistema de variação do tempo de abertura e fechamento de válvulas. O propulsor oferece 132 cv de potência com gasolina e 136 cv com etanol, sempre às 6 mil rpm – o do Civic é um pouco mais potente: 138/140 cv. O torque é de 17,3/17,5 kgfm disponível aos 4.200 giros.
No fim das contas, porém, a versão foi fundamental para o modelo da Toyota fechar o ano passado com 54.599 unidades vendidas ao longo de 2009, enquanto o Civic ficou nos 50.200 emplacamentos. Se comparado com outros competidores do segmento de sedãs médios, o líder Corolla, então, sobra. O Chevrolet Vectra ficou em 23.696, o Citroën C4 Pallas somou 12.025, o Nissan Sentra anotou 9.824 e o Ford Focus sedã chegou aos 9.349. No caso do GLi, porém, a disputa é quase exclusiva com o Civic LXS, enquanto cabe à versão XEi bater de frente com Vectra Elite, C4 Pallas Exclusive e Focus Ghia, que ficam entre R$ 71.500 e R$ 74 mil. Afinal, é uma rivalidade histórica, quase doméstica.
Instantâneas
# A primeira geração do Toyota Corolla surgiu em 1966. O sedã atual é denominado pela montadora como a 10ª geração, mas estruturalmente o modelo é igual à “geração” anterior, de 2002.
# O primeiro Corolla vendido no Brasil foi o da sétima geração, em 1994.
# Em setembro de 1998 a Toyota passou a fabricar o Corolla na sua planta em Indaiatuba, no interior de São Paulo, com motor 1.8 16V de 116 cv.
# A Toyota iniciou suas atividades no Brasil em 1961, em um terreno em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Foi a primeira fábrica da Toyota fora do Japão, responsável pela produção do jipe Bandeirante, que ficou em linha por 40 anos e nada mais era que o Land Cruiser da época.
# Em 2005 a Toyota lançou o Corolla Fielder, derivação station wagon do médio, que deixou de ser fabricada no fim de 2008.
# Além das versões XEi, GLi e XLi, o Corolla também é vendido na configuração top SE-G, sempre com câmbio automático e com preços a partir de R$ 86.260.
Ficha técnica
Toyota Corolla GLi 1.8 16V Flex Automático
Motor: A gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.794 cm³, com quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, duplo comando no cabeçote e sistema variável de abertura e fechamento das válvulas. Acelerador eletrônico e injeção eletrônica multiponto sequencial.
Transmissão: Câmbio automático de quatro marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência: 132 cv com gasolina e 136 cv com etanol a 6 mil rpm.
Torque: 17,3 kgfm com gasolina e 17,5 kgfm com etanol a 4.200 rpm.
Diâmetro e curso: 79,0 mm X 91,5 mm. Taxa de compressão: 10,0:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira por eixo de torção, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e sólidos atrás. ABS e EBD de série.
Rodas: 205/55 R16 em rodas de liga leve.
Carroceria: Sedã em monobloco com quatro portas e cinco lugares. Com 4,54 metros de comprimento, 1,76 m de largura, 1,48 m de altura e 2,60 m de distância entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal.
Peso: 1.260 kg.
Capacidade do porta-malas: 470 litros.
Tanque de combustível: 60 litros.
Produção: Indaiatuba, São Paulo.
Lançamento: 2002
Ponto a Ponto
Desempenho – Os 136 cv de potência entregam uma performance competente ao Corolla. Nada de arroubos de velocidade, mas as reações ao pedal do acelerador são ligeiras e as arrancadas, condizentes. Foram 10,2 segundos para partir da inércia e colocar o ponteiro do velocímetro nos 100 km/h. Um desempenho satisfatório que tem como bom aliado o câmbio automático. Apesar de dispor de apenas quatro velocidades, a caixa trabalha de forma correta, sem grandes delays ou buracos. A transmissão, contudo, mostra uma certa imprecisão na hora de trechos de subida, onde reduz a toda a hora as marchas. As retomadas, por sua vez, são espertas. Antes dos 2.800 giros o motor já enche rápido e facilita na hora das ultrapassagens em estrada. Nota 7.
Estabilidade – O três volumes da Toyota mostra um comportamento bastante neutro. Equilibrado em retas e curvas, a carroceria torce dentro da normalidade em velocidades mais altas e só no limite faz a menção de jogar a traseira. A suspensão bem acertada mantém o modelo comportado também nas arrancadas, sem que a frente levante em demasia, ou nas frenagens bruscas, quando o Corolla “mergulha” dentro do aceitável. A comunicação entre rodas e volante só passa a exigir correções na faixa dos 160 km/h, próximo da máxima. Nota 9.
Interatividade – O Corolla oferece alguns comandos básicos bem posicionados, como os vidros elétricos no descansa-braço das portas e funções do sistema de som no volante. Contudo, há outros pouco intuitivos, como o que regula os espelhos – meio escondido à esquerda do volante. O computador de bordo também tem visualização ruim, em um pequeno display ao centro do quadro de instrumentos. O ajuste de altura da coluna da direção tem pouca flexibilidade e o aro do volante acaba por tapar parte da visualização superior do quadro de instrumentos. Já as largas colunas traseiras atrapalham a visibilidade. Em compensação, a direção eletro-hidráulica, macia e precisa, oferece bom esterçamento, o que ajuda nas manobras. Nota 6.
Consumo – O modelo testado registrou média de 7,6 km/l com aplicação 2/3 na cidade e 1/3 na estrada. Bem razoável para um carro automático utilizando 100% de etanol no tanque. Nota 7.
Tecnologia – O modelo utiliza plataforma de 2002 e foi remodelado apenas visualmente em 2008 – a nova geração deverá chegar daqui a dois anos. Utiliza um motor 1.8 com um interessante sistema de variação do tempo de abertura e fechamento de válvulas, mas a suspensão traseira ainda é por eixo de torção, enquanto a maioria dos rivais já aplica sistemas independentes na parte de trás. No que diz respeito à segurança, a versão GLi só oferece previsíveis airbag duplo e ABS. Na parte de conforto, não tem nada além que os competidores em sua faixa de preço. Nota 7.
Conforto – Na frente, motorista e passageiro desfrutam de bom vão para pernas, enquanto atrás o espaço é um pouco mais restrito. De qualquer forma, dois adultos normais e uma criança conseguem se acomodar sem grandes apertos, mas também sem muitas folgas. A suspensão, apesar de bem firme, trabalha de forma eficaz e absorve os buracos das pistas. E o isolamento acústico se mostra eficiente em velocidades normais. Nota 8.
Habitabilidade – O porta-malas de 470 litros condiz com o segmento, enquanto o habitáculo oferece uma boa quantidade de porta-objetos e alguns práticos porta-copos. Há luzes de leitura bem posicionadas na frente e atrás. Já os acessos são facilitados pelo bom vão das portas e apenas os ocupantes de trás precisam fazer algum contorcionismo devido ao caimento da terceira coluna. Nota 8.
Acabamento – O Corolla é um carro correto até no acabamento. O modelo usa materiais que aparentam qualidade e até as poucas peças plásticas deixam claro o cuidado de fabricação. Detalhes em aço escovado e cromados dão um toque a mais de sofisticação. Encaixes e fechamentos beiram a perfeição e não há sinais de rebarbas. Nota 8.
Design – Na repaginação de 2008 a Toyota tentou deixar o Corolla com um ar mais arrojado e menos conservador. Os faróis ficaram mais volumosos e angulosos e o modelo assumiu algumas características estéticas do médio-grande Camry. Mesmo assim, trata-se do desenho mais básico do segmento. Nota 7.
Custo/benefício – A versão GLi oferece uma relação de itens de série bastante interessante. Seu alvo, na verdade, é o Civic LXS automático. O modelo da Toyota é um pouco mais barato, custa R$ 69.760 e oferece a mais ar automático, controles do som no volante e computador de bordo. O exemplar da Honda, em contrapartida, parte dos R$ 70.830 mas tem borboletas no volante para mudanças sequenciais de marchas e suspensão traseira independente. Nota 7.
Total – O Corolla GLi automático somou 74 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Certinho demais
A versão GLi do Corolla segue à risca a filosofia que o sedã médio da Toyota carrega desde seu lançamento no Brasil. É um modelo com desempenho satisfatório, comportamento dinâmico exemplar, conforto na medida certa, mas sem qualquer “appeal”, seja no design ou na performance. E a maior prova é quando se coloca para funcionar o motor 1.8 16V VVT-i com sistema de variação do tempo de abertura e fechamento das válvulas. Os 136 cv dão fôlego na medida certa para o três volumes feito em Indaiatuba.
Com isso, as arrancadas e retomadas de velocidade são apenas competentes, sem qualquer suspiro de esportividade ou de mais arrojo. Ainda mais com a caixa automática de quatro velocidades muito bem escalonada, que não apresenta buracos significativos e casa perfeitamente com o propulsor 1.8. Na verdade, o Corolla nem chega a estimular a pisar mais fundo no pedal do acelerador, tamanho é o seu comportamento pacato e correto. E não por falta de apetite, já que pisando fundo foi possível colocar o ponteiro nos 175 km/h.
Na estabilidade, mais uma prova do carro certinho. O modelo oferece ótima rigidez torcional, a carroceria não faz menção de rolar nas curvas e nas frenagens bruscas o modelo não foge da trajetória. A comunicação entre rodas e volante se mostra precisa até os 160 km/h. A dirigibilidade também é eficaz, com a direção eletro-hiráulica bastante macia e precisa, boa posição de dirigir e espaço suficiente para pernas e cabeça do condutor. Atrás, o vão para pernas parece ser na medida exata para dois adultos e uma criança.
O nível de acabamento também acompanha a precisão que a marca parece imprimir em toda linha Corolla, sem qualquer sinal de rebarbas e com revestimento agradável aos olhos e ao toque. A ergonomia, contudo, se mostra falha em alguns aspectos, com certos comandos malposicionados. Até no consumo o sedã médio da Toyota se mostra correto. Com etanol no tanque e uso 2/3 urbano e o restante rodoviário, o modelo testado anotou a média de 7,6 km/l. Nada mal para um veículo automático.