Fome de vender
Ford quer acelerar vendas do Focus com a boa relação custo/benefício da versão 1.6 16V flex
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
A Ford bem que tentou mudar a sorte do Focus com o lançamento da nova geração do médio, no fim de 2008. Mas mesmo com um visual bem moderno – ainda atualizado com a versão europeia –, o dois volumes manteve as vendas tímidas. No ano passado, foram 1.400 unidades mensais do hatch, o que não foi suficiente para o modelo ultrapassar os veteranos Chevrolet Astra e Volkswagen Golf no segmento dos médios. Para piorar, ainda foi atropelado – como todos – pelo fenômeno Hyundai i30. Com um certo atraso, é verdade, a montadora trata de colocar a nova geração para estrear um motor 1.6 flex. Até então, era vendido apenas na configuração 2.0 16V a gasolina. Uma tentativa para trazer dias melhores ao Focus.
Pelo menos, o motor é totalmente novo. Sai o antigo 1.6 8V Zetec Rocam e entra a nova linha Sigma, multiválvulas e construída em alumínio injetado sob pressão – que dispensa boa parte do processo de usinagem. Sem truques como balancins roletados, bobinas individuais ou comando variável, esse 1.6 16V gera 109 cv de potência com gasolina a 6.250 rpm e 115 cv com etanol a 5.750 giros e torque de 15,9/16,0 kgfm a 4.250 rpm. De acordo com a marca, 80% desta força já está disponível aos 1.500 giros. Com ele, o hatch agora parte dos R$ 49.900 na GL e chega a R$ 51.400 na GLX avaliada. E passa a atuar com o propulsor mais novo do nicho em uma litragem que representa 30% do segmento de médios no geral.
O motor está disponível apenas para o hatch. Ou seja, o Focus ganha competitividade para atuar em uma faixa de preço mais baixa. O Volkswagen Golf 1.6 parte dos R$ 49.310, o Peugeot 307 Presence 1.6 16V custa R$ 49.900 e o Citroën C4 GLX tem preço sugerido de R$ 54.880 – o único rival mais moderno com motor 1.6. O defasado Astra resiste com seu propulsor 2.0, mas com preço bastante agressivo, a partir de R$ 45.184. Cifras agressivas também são uma praxe da Hyundai com seu i30, que custa iniciais R$ 54 mil. Coincidência ou não, esses dois modelos com custo/benefício atraente, hoje, lideram o segmento.
Mas o Focus também oferece uma lista de equipamentos interessante. O modelo sai de fábrica com airbag duplo, ar-condicionado, direção hidráulica, travas e vidros dianteiros elétricos, alarme, regulagem de altura dos faróis, rodas aro 16, entre outros. O modelo também passou a contar finalmente com terceiro encosto de cabeça no banco traseiro e ainda possui um sistema de som que inclui rádio/CD/MP3 com entrada auxiliar, seis alto-falantes e dois tweeters. A GLX é mais equipada. Traz vidros elétricos com sistema um toque em todas as janelas, retrovisores elétricos, keyless, console central com descansa-braço e espelhos nod para-sois com luz. Também é a única configuração da linha 1.6 que pode receber ABS como opcional, que faz o preço da GLX saltar para R$ 52.400.
Por fora, o Focus 1.6 top tem carcaças dos retrovisores, maçanetas, régua do porta-malas e aerofólio traseiro pintados na cor da carroceria. No geral, o hatch médio da Ford ostenta um visual bem moderno e original, embora não seja uma unanimidade. O modelo incorpora uma prévia do estilo kinetic da marca, com faróis angulosos, abuso de vincos na carroceria, sem perder uma de suas marcas registradas: as lanternas na coluna traseira, paralelas ao vidro, que ficou mais generoso e inclinado na nova geração. Ou seja, o Focus tem apelos, tanto internos como externos, para virar o jogo.
Instantâneas
# O Ford Focus é produzido na planta da Ford em Pacheco, na Argentina.
# A primeira geração do médio surgiu no Brasil e na Argentina em 2000.
# A Ford mostrou no Salão de Detroit a terceira geração do Focus, que deve chegar à Europa no ano que vem, mas só deve dar as caras no Brasil em 2013.
# Na planta da Ford em Pacheco também é feita a pick-up média Ranger.
# Esta segunda geração do Focus usa a mesma arquitetura do Volvo C30 e do Mazda 3.
# A linha Focus conta com 10 versões no mercado brasileiro. Além da GLX 1.6 16V e da GL 1.6 16V do hatch, há também as versões GLX e Ghia, do hatch e do sedã, com motor 2.0 16V Duratec e configurações com transmissão automática ou mecânica.
Ficha técnica
Ford Focus GLX 1.6 16V
Motor: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.596 cm³, quatro cilindros em linha, duplo comando no cabeçote e quatro válvulas por cilindro. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual com cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 109 cv com gasolina a 6.250 rpm e 115 cv com etanol a 5.500 rpm.
Torque máximo: 15,9/16,0 kgfm com gasolina/álcool a 4.250 rpm.
Diâmetro e curso: 79,0 mm X 81,4 mm. Taxa de compressão: 11,0:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos. Traseira independente em braços múltiplos, com molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e tambores atrás. ABS, EBD e controle de frenagem em curvas como opcional na versão GLX.
Pneus: 205/55 R16 em rodas de liga leve.
Carroceria: Hatch em monobloco com quatro portas e cinco lugares. 4,33 metros de comprimento, 1,84 metro de largura, 1,50 metro de altura e 2,64 metros de distância entre-eixos. Airbag duplo frontal de série.
Peso: 1.290 kg em ordem de marcha, com 400 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 328 litros.
Capacidade do tanque de combustível: 55 litros.
Produção: Pacheco, Grande Buenos Aires, Argentina.
Lançamento mundial: 2004, com face-lift em 2007.
Lançamento no Brasil: 2008, já com o face-lift de 2007.
Ponto a ponto
Desempenho – O novo motor 1.6 16V proporciona boas arrancadas. O propulsor responde rápido ao pedal do acelerador e, graças às primeiras relações de marchas bem curtinhas, o modelo desenvolve bem, com um zero a 60 km/h em interesantes 6,9 segundos. Mas o propulsor perde um pouco de vontade após essa marca. A partir da terceira, as relações de marcha são mais compridas e exigem uma esticada a mais no motor, o que resulta em zero a 100 km/h de 12,6 segundos. Depois dos 110 km/h, porém, é preciso mais paciência para fazer o hatch chegar à máxima de 185 km/h em trecho plano e livre. As retomadas são o destaque. O motor Sigma é elástico e já oferece 80% do torque aos 1.500 giros. Com isso, o motorista pode contar com motor cheio rapidamente das 2 mil rpm até 4 mil rpm. Nota 8.
Estabilidade – O Focus sempre foi bem neste quesito, desde a primeira geração. Nesta versão atual, a rigidez torcional foi melhorada e o modelo não faz menção de rolar a carroceria nas curvas mais fechadas. Nas retas, a sensação de flutuação surge aos 150 km/h e, nas freadas, o modelo deixa a desejar, mergulhando bem a frente. Mesmo assim, o ABS – opcional na GLX – ajuda a manter o carro na trajetória. Nas arrancadas, a suspensão se comporta melhor e o Focus não empina em demasia. Nota 8.
Interatividade – O hatch é bem projetado por dentro. O volante dispõe de ajustes de altura e profundidade, o que facilita ao condutor encontrar a melhor posição de dirigir. A ergonomia também é eficiente, com comandos dos vidros e espelhos bem posicionados no descansa-braço. Os botões do ar e do rádio também são bastante intuitivos. A falha fica no comando de ajuste de altura do farol, meio escondido à esquerda do quadro de instrumento. O cluster, aliás, tem iluminação que não cansa, ao contrário do display digital com informações do computador de bordo, na cor âmbar. O manuseio do computador também é complicado, em uma haste do volante. Já o câmbio tem curso curto e os engates não são muito suaves. Nota 7.
Consumo – O modelo fez a sofrível média de 5,9 km/l com etanol e uso 2/3 na cidade e 1/3 na estrada. Nota 5.
Tecnologia – A atual geração usa uma plataforma de 2004, recente para os padrões brasileiros, mas que deve ser substituída na Europa em 2011. O modelo adotou um moderno motor 1.6 16V com bloco em alumínio injetado. Isso sem falar na suspensão traseira independente multilink, uma espécie de “marca” do Focus desde a geração anterior. Nos itens de segurança, a versão só dispõe de airbag duplo, regulagem de altura dos faróis e ABS, que é opcional. O som com entrada auxiliar e de boa qualidade é o único item interessante de entretenimento. Nota 8.
Conforto – Há espaço suficiente para dois adultos e uma criança viajarem no banco de trás do Focus sem aperto – só pessoas com mais de 1,80 m tendem a raspar um pouco a cabeça no teto. Na frente, motorista e carona também usufruem de bom vão para pernas e cabeças. O banco acomoda bem o motorista. Já a suspensão filtra de forma eficiente os buracos das ruas brasileiras, sem sacolejar os passageiros. O isolamento acústico, contudo, decepciona. Já aos 80 km/h o barulho do motor e de rodagens invade o habitáculo. Nota 7.
Habitabilidade – Os acessos são facilitados pelo bom vão das portas. Por dentro, o modelo oferece uma boa quantidade de porta-objetos e porta-copos. O porta-malas de 328 litros condiz com o segmento. Nota 8.
Acabamento – De uma maneira geral, o Focus é bem cuidado por dentro. A nova linha 1.6 tem volante revestido em couro com raios que imitam aço escovado e emprestam certo requinte ao hatch. Apesar de ter muitas peças plásticas, o painel tem revestimento com textura agradável. Os encaixes e fechamentos no painel e no revestimento das portas se mostram precisos. No teto, porém, há sinais de rebarbas em alguns pontos. Nota 7.
Design – O Focus, que já era moderninho, ficou mais arrojado. O modelo adotou faróis mais agressivos, uma carroceria com mais saliências e musculosa e vidro traseiro bastante inclinado. Além disso, manteve as lanternas verticais paralelas à janela de trás, uma das marcas do hatch médio desde a primeira geração. Um visual que vai mudar na Europa ano que vem, com a chegada de sua terceira geração. Nota 9.
Custo/benefício – O modelo 1.6 16V do hatch médio parte dos R$ 51.400 na versão GLX, conta com um motor moderno, boa lista de equipamentos e um design moderninho. O único opcional, porém, é o ABS dos freios, que o faz chegar a R$ 52.400. Mas com essa versão, o Focus ficou com uma opção mais em conta para brigar com os veteranos Golf, o moribundo 307, o moderninho C4, que têm motor 1.6. E ainda tenta roubar vendas do fenômeno i30. Nota 7.
Total – O Ford Focus GLX 1.6 16V somou 75 pontos em 100 possíveis
Impressões ao dirigir - Com apetite no asfalto
A Ford sempre se destacou por trabalhar motores bastante competentes e eficientes no Brasil. Foi assim com a linha Zetec e, posteriormente, com a Zetec Rocam. O mesmo ocorre com seus propulsores vindos de fora, como o Duratec. Com isso, a nova linha Sigma 1.6 16V criou uma certa expectativa. E, mais uma vez, a marca norte-americana não decepcionou. Pelo menos no começo. No Focus, os 115 cv com etanol emprestam boa agilidade ao hatch médio nas primeiras arrancadas. O câmbio bem acertado e escalonado, com as relações curtas da primeira para segunda e da segunda para a terceira marchas, faz o modelo sair da inércia e alcançar os 60 km/h com desenvoltura: 6,8 segundos.
A nova unidade de força também se sai bem nas retomadas.O motor multiválvulas entrega uma boa dose de força – 80% dos 16 kgfm – já aos 1.500 giros. Na verdade, o propulsor trabalha melhor entre os 2 mil e 4 mil giros. Enche rápido e não requer reduções de marchas drásticas para fazer ultrapassagens. Tampouco mudar o câmbio a toda hora em trechos de subida e serra. No plano, o 60 km/h a 100 km/h em quarta foi obtido em 8 segundos cravados. O Sigma só decepciona nas arrancadas depois da terceira marcha, quando as relações mais compridas exigem esticadas a mais do motor. E, em velocidades mais altas, também deixa a desejar. Depois dos 110 km/h é preciso paciência e pé atochado no pedal do acelerador para colocar o velocímetro nos 185 km/h.
Nessa velocidade, a comunicação entre rodas e volante do Focus já exige correções. Mas a estabilidade em velocidades civilizadas é exemplar. Em retas ou em curvas. A suspensão traseira multilink, além de absorver bem irregularidades das pistas e privilegiar o conforto, também confere uma boa desenvoltura em curvas. O modelo não faz menção desgarrar, mesmo entrando agressivo em algumas situações. A suspensão, porém, falha um pouco na hora de frear bruscamente o dois volumes, quando a traseira levanta bastante e o Focus tende a mergulhar a frente um tanto além do recomendável.
Outro ponto decepcionante do novo propulsor da Ford é o consumo. Para um motor com bloco em alumínio e cheio de maternidades, a média de 5,9 km/l – em percurso 2/3 urbano e o restante rodoviário – chega a ser lamentável. A novidade sob o capô também merecia um tratamento acústico mais caprichado por parte da Ford. A partir dos 80 km/h o barulho do motor já incomoda bastante quem está dentro do carro. No mais, o Focus mantém as virtudes. Ergonomia eficiente, boa posição de dirigir, conforto na medida certa e um design bem arrojado.