Para levantar poeira
Saveiro Cross chega para Volks exibir robustez da pick-up e bater de frente com a Strada Adventure
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Fernando Miragaya/Carta Z Notícias
Com a Saveiro, a Volkswagen resolveu abrir novas frentes de ataque para tentar roubar a liderança da Strada no segmento de pick-ups compactas. Primeiro, lançou a nova geração do modelo apenas na configuração cabine estendida, algo que apenas a rival da Fiat possuía até então. Depois colocou no mercado a versão cabine simples com preços mais atraentes. Agora, com a nova derivação Cross, é a vez de a pick-up da Volks atacar de frente a Strada Adventure. Afinal, a versão pseudo-off-road da Fiat, além de emprestar a imagem de robustez, responde por 35% das vendas da linha.
Ou seja, a Volks está de olho numa fatia generosa do mercado, que soma, só às vendagens da Strada, mais de 3 mil unidades mensais. O caminho ainda é longo. Mas já foi pior. A Saveiro registrava médias de 2 mil unidades mensais até o lançamento da segunda geração, em agosto. Era, até então, a mais antiga do segmento ao lado da Ford Courier e estava em terceiro no ranking, atrás da Chevrolet Montana. Em janeiro deste ano, as vendas chegaram a 3.380 unidades e o modelo ultrapassou a Montana. Por pouco, é verdade: apenas 40 unidades a mais. Com a nova versão, porém, a sua meta de atingir de 5 mil unidades mensais, anunciada no lançamento da nova geração, fica mais próxima da realidade.
Para tal, a Volks segue a receita dos off-road lights de plantão. E tenta criar uma identidade própria para a linha Cross, que até então só existia com o CrossFox – resposta tardia à linha Adventure da Fiat. A Saveiro Cross usa apliques estéticos que evocam uma alma lameira e incorpora um conjunto ótico que remete ao próprio CrossFox. Na frente, grade diferenciada e para-choques na cor preta mais encorpados. O conjunto ótico, no geral, também acompanha a versão aventureira do Fox. Lentes escurecidas nos faróis principais, enquanto os faróis auxiliares – que reúnem o de neblina e o de milha – aparecem embutidos no spoiler.
Na lógica da robustez visual, a pick-up ainda conta com molduras das caixas de roda também na cor preta e um friso na parte inferior das portas – também em preto – com o nome da versão escavado no plástico. Na configuração, o rack no teto se prolonga até a caçamba na forma de barras paralelas e fazendo as honras de santantônio. Os pneus Pirelli Scorpion são de uso misto que calçam rodas de liga leve aro 15. Na traseira, mais molduras na cor preta, lanternas escurecidas e o nome da configuração mais uma vez, só que desta vez pintado na lataria em itálico.
Por dentro, a Volks lançou mão de um acabamento com o painel em dois tons. Os anéis das saídas de ar são em preto brilhante e o pomo da manopla do câmbio recebeu a inscrição "Cross". Há detalhes cromados nas molduras dos mostradores do quadro de instrumentos, na própria manopla da transmissão, botões do comando de ventilação e maçanetas internas das portas. O padrão de tecido dos bancos também é novo e segue a tecnologia Embossed, que simula as marcas deixadas por pneus na areia.
Na parte estrutural, a Saveiro Cross segue a receita de sua principal rival: suspensão elevada em quase 3 cm, além dos pneus uso misto. O modelo da Volks será comercializado apenas na configuração cabine estendida e o motor é o conhecido 1.6 VHT de 101/104 cv de potência. Na lista de equipamentos, contudo, a Saveiro Cross tenta se diferenciar da concorrente. Sai de fábrica com direção hidráulica, trio elétrico lanterna de neblina, capota marítima, tampa da caçamba com chave, volante e banco do motorista com ajustes de altura e de profundidade, para-sóis com espelhos iluminados e alarme na chave do tipo canivete.
Entre as bossas, sensor de obstáculos traseiro e repetidores dos piscas nas carcaças dos retrovisores, itens que sua rival não possui. Com isso, a Cross evidencia seu custo/benefício mais atraente. Parte dos R$ 41.840 e com ar-condicionado chega a R$ 44.684. A Strada Aventure começa em R$ 46.020 já com ar, mas ao receber capota marítima e retrovisores elétricos alcança os R$ 48.440. Com todos os opcionais, porém, que incluem o airbag duplo, freios com ABS, rádio/CD/MP3 com entradas USB, SD Card e Bluetooth e volante multifuncional, a Saveiro Cross chega a R$ 47.937. Ainda permanece bastante competitiva. E é desta forma que a Saveiro quer abalar a liderança da Fiat.
Instantâneas
# A Saveiro foi lançada pela Volkswagen em 1982. Sofreu reestilizações na carona da linha Gol, em 1994, 1999 e 2005.
# O modelo manteve a liderança entre as pick-ups compactas até 2002, quando a Fiat Strada tomou a liderança.
# Arena foi o nome pensado para esta nova geração da Saveiro. Só que a marca já estava registrada para a GM, que lançou uma versão justamente da Montana com o nome.
# A Saveiro Cross usa como cor de lançamento o laranja Atacama, mesmo tom que serviu para o lançamento da CrossFox 2010.
# A versão com cabine simples da Saveiro transporta 108 litros atrás dos bancos, 924 litros na caçamba e 715 kg de carga total.
# A configuração Cross deve "matar" aos poucos a versão Trooper Cabine Estendida da pick-up da Volks, que custa R$ 40.300, R$ 1.500 abaixo da Cross, só que com menos equipamentos.
# A Saveiro é vendida ainda nas versões básicas por R$ 32.030 na cabine simples e R$ 34.830 na estendida. A versão Trooper cabine simples parte dos R$ 37.670.
Ficha técnica
Volkswagen Saveiro Cross 1.6
Motor: A gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.598 cm³, quatro cilindros em linha, duas válvulas por cilindro e comando simples de válvulas no cabeçote. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 101 cv com gasolina e 104 cv com etanol a 5.250 rpm.
Torque máximo: 15,4 kgfm com gasolina e 15,6 kgfm com etanol a 2.500 rpm.
Diâmetro e curso: 76,5 mm x 86,9 mm. Taxa de compressão: 12,1:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços triangulares transversais, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora de 20 milímetros de diâmetro. Traseira interdependente, com braços longitudinais, molas helicoidais superprogressivas e amortecedores hidráulicos. Não oferece controle de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e tambores atrás. Oferece ABS como opcional.
Pneus: 205/60 R15 de uso misto em rodas de liga leve.
Carroceria: Pick-up cabine estendida em monobloco com duas portas e dois lugares, com 4,52 metros de comprimento, 1,73 m de largura, 1,54 m de altura e 2,75 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal como opcional.
Peso: 1.074 kg em ordem de marcha, com 700 kg de carga útil.
Capacidade da caçamba: 734 litros.
Tanque de combustível: 55 litros.
Produção: São José dos Pinhais, Paraná.
Lançamento da geração atual: Agosto de 2009.
Ponto a ponto
Desempenho – O conhecido motor 1.6 de 101/104 cv dá conta do recado nas primeiras aceleradas. As duas primeiras marchas mais curtas até insinuam uma performance mais instigante da Saveiro Cross. Mas entre a terceira e a quinta é preciso esticar bastante para não deixar a pick-up esmorecer. O que compromete um pouco as retomadas de velocidade e o desempenho do modelo em trechos de subida, apesar de o torque já ser oferecido em sua plenitude em giros baixos: 2.500 rpm. Durante o test drive em trecho de estrada, foi possível colocar o ponteiro do velocímetro nos 140 km/h. A Volkswagen fala em um zero a 100 km/h em 11 segundos e final de 177 km/h com 100% de etanol no tanque. Nota 7.
Estabilidade – A Volks jura que não mexeu sequer na carga dos amortecedores da Cross. Mas a versão se mostra mais no chão que a Trooper cabine estendida, por exemplo. Nas curvas, só mesmo em velocidades pouco civilizadas é que a pick-up faz menção de jogar a traseira. Dentro da normalidade, a Cross não prega sustos. A comunicação entre rodas e volante só fica comprometida mesmo por volta dos 140 km/h sem carga. Nas freadas bruscas, a caçamba vazia levanta um pouco e faz o carro mergulhar levemente, mas o ABS opcional na versão avaliada mantém o modelo na trajetória. Nota 8.
Interatividade – A maioria dos comandos da Saveiro são bem localizados e estão ao alcance das mãos e dos olhos do motorista. A versão Cross ainda oferece regulagens de altura e de profundidade do volante e do banco do condutor. O quadro de instrumentos e o computador de bordo oferecem visualização rápida e objetiva. As visões frontal e lateral são satisfatórias e os retrovisores externos têm boas dimensões e promovem boa visibilidade. O câmbio tem relações curtas, porém, pouco suaves. Na hora de estacionar, os sensores de obstáculos traseiros são um importante aliado. Nota 8.
Consumo – Com etanol no tanque, o modelo testado anotou média de 7,2 km/l em percurso quase 100% rodoviário. Nota 6.
Tecnologia – A nova geração da Saveiro usa plataforma do Fox, uma derivação simplificada da arquitetura do Polo, que data de 2002. O motor 1.6 é veterano. O modelo conta com itens de segurança e de conforto interessantes apenas como opcionais, como airbag duplo, ABS e som com Bluetooth. Nota 7.
Conforto – O modelo oferece o espaço de sempre para uma pick-up compacta, com certa folga para pernas. O espaço para cabeça, no entanto, é mais generoso, característica dos carros que usam a base do "altinho" Fox. A suspensão trabalha bem em trechos de terra e, em conjunto com os pneus de uso misto, até que absorvem bem as buraqueiras do asfalto e da terra, sem grandes sacolejos na cabine. O isolamento acústico, no entanto, é sofrível e o barulho do motor é percebido já aos 100 km/h. O banco "diferenciado" da configuração deixa a desejar em termos de conforto. Nota 7.
Habitabilidade – A cabine estendida da Saveiro oferece um bom espaço na parte de trás dos bancos, onde é possível acomodar mochilas e malas médias. E não compromete tanto a caçamba, que comporta interessantes 734 litros. Na cabine, há 16 porta-objetos e um prático porta-copos no console central. A versão vem com luzes de cortesia e para-sóis iluminados. Nota 8.
Acabamento – Os apliques cromados e em preto brilhante da Cross ajudam a amenizar a simplicidade do acabamento da linha Saveiro. Há abuso de peças plásticas e algumas rebarbas são percebidas nas forrações do teto e no tecido que reveste as portas. O porta-luvas também tem algumas falhas de encaixe. O revestimento dos bancos, porém, suaviza a simplicidade onipresente. Nota 6.
Design – A Volks não é dada a ousadias visuais e com a nova Saveiro não foi diferente. Porém, com a Cross, conseguiu imprimir uma imagem aventureira à pick-up sem extrapolar e adotar apliques controversos. As caixas de roda e molduras na carroceria na cor preta passam sensação de robustez, o conjunto ótico com faróis auxiliares ficou harmonioso e o rack no teto, integrado à carroceria, conferiu certa dose de esportividade. E mais modernidade que sua veterana rival Strada Adventure. Nota 7.
Custo/benefício – É onde a Saveiro Cross ataca. Por iniciais R$ 41.840, é bem mais barata que a Strada Adventure, que parte dos R$ 46.020. Mesmo com ar como opcional, chega a R$ 44.684, mais em conta que a rival, que começa em R$ 46.020 e chega a R$ 48.440 com quase os mesmos itens que a Cross. O modelo da Fiat, em contrapartida, conta com diferencial dianteiro autoblocante e um motor 1.8 mais potente. Nota 8.
Total – A Saveiro Cross somou 73 pontos em 100 possíveis.
Primeiras impressões - Aventura sob medida
Campinas - São Paulo – A Saveiro Cross nasce com o claro intuito de rivalizar única e diretamente com a Strada Adventure. E a Volks conseguiu reunir características interessantes para encarar o modelo da Fiat. A começar pelo visual robusto, graças às molduras pretas espalhadas pela carroceria e pelo conjunto ótico que remete ao CrossFox. E que inegavelmente deixam a pick-up compacta com um ar mais valente e jipeiro. Os pneus de uso misto e a suspensão elevada também ajudam. Mas as mudanças não foram só no visual. No pequeno trecho de off-road light, a versão aventureira da Saveiro deu conta do recado. Enfrentou terreno fofo e esburacado com certa desenvoltura e sem sacrificar demasiadamente a coluna dos ocupantes.
Mas, como todo pseudo-off-road, a Saveiro carece de itens para um fora-de-estrada de verdade. Por isso, a pick-up se sente mesmo à vontade no asfalto. E nas diversas e diferentes rodovias da região de Campinas, no interior paulista, a Cross não fez feio. Pelo contrário, surpreendeu pela boa estabilidade em curvas. Mesmo com a caçamba vazia, não fez menção de desgarrar da estrada. Só em velocidades mais agressivas jogou levemente a traseira. Ou seja, é um veículo para andar de forma civilizada.
No desempenho, algumas qualidades e defeitos. A Saveiro responde bem às investidas no pedal do acelerador e sai da inércia até de forma ligeira. Mas, em trechos de subida e na hora de fazer ultrapassagens, o modelo exige que o motorista reduza e estique constantemente as marchas para ganhar fôlego. Depois de pegar o embalo, contudo, a Saveiro Cross chega com facilidade aos 140 km/h. De acordo com a montadora, a máxima com etanol no tanque é de 177 km/h.
Antes disso, porém, a Saveiro deixa a desejar em alguns detalhes. Principalmente no isolamento acústico. O ruído do motor invade a cabine já aos 100 km/h. No mais, uma boa sensação de espaço dentro do habitáculo, graças principalmente ao teto elevado da pick-up, ergonomia eficiente com a maioria dos comandos bastante intuitivos e bem posicionados e dirigibilidade satisfatória, com boa visibilidade e posição elevada de dirigir. No consumo, com o modelo rodando com etanol, o computador de bordo assinalou 7,2 km/l. Pouco animador para um percurso praticamente todo na estrada.