FIAT DOBLÒ ADVENTURE 1.8 LOCKER

 
 

Sem medo de cara feia
Com apenas um tímido rival, Doblò conta com versão Adventure para dominar o segmento de multivans



Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias

A posição do Doblò no mercado brasileiro é tão espaçosa quanto seu interior – aliás, seu principal apelo de vendas. A multivan da Fiat esta há quase nove anos no mercado e atualmente só tem um rival de fato: o Renault Kangoo, feito na Argentina. Só que, além de oferecer mais espaço e melhor habitabilidade, o modelo feito em Betim ainda conta com uma rede de concessionárias mais ampla. Com isso, consegue reinar absoluto no seu nicho. É verdade que trata-se de um segmento pouquíssimo popular no Brasil, mas que foi suficiente para o Doblò manter médias de quase 600 unidades mensais no ano passado, contra 200 do concorrente. Por outro lado, permite ao furgãozinho ousar pouco. O primeiro investimento em reestilização só aconteceu no fim de 2009.
Nada que tenha melhorado significativamente o visual controverso. Tão controverso que a versão Adventure, com seus apliques jipeiros que emprestam um ar mais robusto e moderninho à multivan, é , com folgas, a que mais vende: 55%. Nela, o Doblò recebe máscaras negras nos faróis, que foram redesenhados no face-lift de novembro do ano passado. O conjunto ótico ficou maior e mais anguloso em relação às lentes horizontalizadas da versão anterior. A configuração aventureira da multivan também conta com a grade cromada dentada na frente, item que já é aplicado em toda a linha Adventure da Fiat.
O Doblò Adventure tem outros apliques típicos da linha. Estribos laterais e traseiro, bancos com a inscrição da versão bordada, faróis de milha e de neblina, barras longitudinais no teto, estepe na porta traseira, rodas de liga leve aro 15 e painel com inclinômetros e bússola. Além disso, o modelo tem suspensão reforçada, vão livre do solo 3 cm maior, pneus de uso misto e o sistema Locker, bloqueio eletrônico do diferencial dianteiro. Itens que vão um pouco além da aparência e deixam a versão top da multivan ainda mais solitária. Afinal, o Kangoo tem uma versão Sportway, que se limita exclusivamente à estética.
Mas os preços também mostram essa diferença. O Doblò Adventure parte dos R$ 61.170, enquanto seu rival começa em R$ 51.890. É verdade que o modelo da Fiat vem bem recheado. Sai de fábrica com airbag duplo e freios com ABS e EBD. Na parte de conforto, itens previsíveis como ar-condicionado, travas e vidros dianteiros elétricos, direção hidráulica, chave do tipo canivete com telecomando para abertura e fechamento das portas, computador de bordo, volante com ajuste de altura, espelhos nos para-sóis, entre outros. Na carona da reestilização, a multivan também agora vem de série com o sexto banco sobressalente – o sétimo, oferecido sob encomenda na versão normal, não pode ser instalado na versão Adventure por causa da estrutura que prende o estepe.
O Kangoo Sportway oferece mais ou menos os mesmos equipamentos, tem rádio/CD/MP3 e retrovisores elétricos, mas não conta com freios com ABS. O retrovisor elétrico e o som no Doblò, por exemplo, só como opcionais. O modelo, porém, pode receber ainda Bluetooth, estepe em roda de liga leve, descansa-braço dianteiro e revestimento em couro, além do rádio que tem entradas para USB e iPod. Desta forma, como o modelo avaliado, a multivan chega a R$ 65.671.
O Doblò também conta com uma motorização mais potente. O propulsor 1.8 flex gera 112 cv com gasolina e 114 cv com etanol a 5.500 rpm – o exemplar da Renault tem motor 1.6 de 95/98 cv. O torque máximo é de 17,8 kgfm e 18,5 kgfm, disponíveis nas 2.800 rotações. Um conjunto de “argumentos” que favorecem o Doblò. E o fato de a Fiat ter três vezes mais concessionárias que a marca francesa no Brasil, talvez seja apenas o golpe de misericórdia.
Instantâneas
# O Fiat Doblò foi lançado em 2001 com uma forte ação de merchandising em dois reality-shows que estrearam à época: o “Casa dos Artistas”, do SBT, e o “Big Brother”, da Globo.
# Dias antes da reestilização da linha 2010 do Doblò brasileiro, a Fiat italiana apresentou a nova geração da multivan, que ficou maior e com um visual mais arrojado que o vendido aqui.
# Antes do Brasil, o Doblò Adventure começou a ser fabricado na Turquia, em 2000.
# Em 2004, a Fiat lançou uma série limitada do Doblò Adventure chamada Estrada Real com um porta-bagagem no teto que fazia a altura do modelo saltar para espantosos 2,41 metros.
# No lançamento da linha 2010, a Fiat estreou uma nova motorização 1.4 de 85/86 cv para a multivan.
# Além da versão Adventure, o Doblò é vendido nas versões 1.4 – R$ 49.270 –, ELX 1.4 – R$ 52.970 – e HLX 1.8 – R$ 55.110.
Ficha técnica
Fiat Doblò Adventure Locker
Motor: A gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.796 cm³, quatro cilindros em linha, duas válvulas por cilindro e comando simples de válvulas no cabeçote. Injeção eletrônica multiponto sequencial e acelerador eletrônico.
Transmissão: Câmbio manual de cinco marchas à frente e uma a ré. Tração dianteira e bloqueio eletrônico do diferencial dianteiro. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 112 cv com gasolina e 114 cv com etanol a 5.500 rpm.
Torque máximo: 17,8 kgfm com gasolina e 18,5 kgfm com etanol a 2.800 rpm.
Diâmetro e curso: 80,5 mm x 88,2 mm. Taxa de compressão: 10,5:1.
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com braços oscilantes inferiores transversais, molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira por eixo rígido, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Não oferece controle de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e tambores atrás. Oferece ABS e EBD de série na versão.
Pneus: 205/70 R15 de uso misto atrás e na frente em rodas de liga leve.
Carroceria: Multivan em monobloco com quatro portas e seis lugares. Com 4,47 metros de comprimento, 1,76 m de largura, 1,95 m de altura e 2,58 m de entre-eixos. Oferece airbag duplo frontal de série na versão.
Peso: 1.455 kg em ordem de marcha, com 490 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 665 litros/ 2.915 litros com o sexto assento e os bancos do meio rebatidos.
Tanque de combustível: 60 litros.
Produção: Betim, Minas Gerais.
Lançamento no Brasil: 2001.
Ponto a ponto
Desempenho – Os 114 cv – com etanol – têm certa dificuldade para movimentar a quase 1,5 tonelada do Doblò. O peso do carro acaba por comprometer as arrancadas, com um zero a 100 km/h em longos 14 segundos. As retomadas também são sofríveis. Mas só não são piores por conta do torque máximo de 18,5 kgfm já estar completamente disponível antes dos 3 mil giros e também graças ao câmbio, relativamente bem escalonado. Mesmo assim, o 60 km/h a 100 km/h consome 12,9 segundos em quarta marcha. É preciso também paciência para chegar à máxima de 160 km/h. Nota 6.
Estabilidade – O estilo caixote da carroceria, as dimensões generosas e a altura elevada tornam o Doblò meio desengonçado nas estradas. Em curvas, a carroceria torce bastante e o modelo faz menção de sair de frente em velocidades pouco civilizadas. Nos trechos planos e retos, a partir dos 110 km/h o modelo passa a ficar “bobo”: flutua bastante e exige correções a toda hora na direção. Nas freadas bruscas, a multivan tende a mergulhar um pouco, mas o ABS mantém o carro sob controle do motorista. Nota 6.
Interatividade – Os principais comandos dentro do Doblò estão bem posicionados e são bastante intuitivos, como botões dos vidros elétricos e faróis. O câmbio elevado também é um ótimo aliado do condutor, mas merecia engates mais precisos. Devido ao interior bem espaçoso, alguns outros comandos, como do ar e do rádio, já exigem deslocamentos por parte do condutor. O quadro de instrumentos é de fácil visualização, assim como o computador de bordo. A visibilidade dianteira e lateral são excelentes, graças à ampla área envidraçada. Na hora de estacionar, os generosos retrovisores e a carroceria com cortes definidos e retos ajudam ao motorista. E compensam o estepe na porta traseira, que compromete a visibilidade nas manobras de ré. Nota 7.
Consumo – A média sofrível, de 6,1 km/l com etanol e uso 2/3 na cidade e o restante na estrada, só se justifica pela massa excessiva do modelo. Nota 6.
Tecnologia – O Doblò usa uma plataforma de quase 10 anos e um motor já bastante manjado. A versão Adventure, pelo menos, oferece de série airbag duplo e freios com ABS. Também conta com o sistema de bloqueio do diferencial dianteiros Locker. Mas estão fora itens, mesmo da lista de opcionais, como o sistema de conectividade Blue&Me, o câmbio automatizado Dualogic e sensores de estacionamento. Nota 7.
Conforto – Espaço é o que não falta dentro do Doblò. O vão para cabeças e pernas de todos os ocupantes é bastante amplo. Atrás, três adultos viajam sem apertos e ainda há um sexto banco de série, mais indicado para crianças. O isolamento acústico se mostra falho a partir dos 110 km/h. Já a suspensão até absorve bem as imperfeições do asfalto, mas devido às dimensões do modelo, o Doblò quica um pouco em trajetos menos convidativos. Nota 8.
Habitabilidade – É o ponto forte da multivan desde seu lançamento. Para começar, os acessos ao habitáculo são ótimos, beneficiado pelas amplas portas dianteiras e pelas portas deslizantes traseiras – só mesmo quem for acessar o sexto banco pode encontrar alguma dificuldade. Por dentro, há uma infinidade de porta-objetos: além da grande prateleira na parte frontal do teto, existem quatro compartimentos graúdos nas portas dianteiras e traseiras, um menor no console central, entre os bancos, um diminuto à frente da alavanca de câmbio, um porta-copos duplo também no console central e porta-garrafas no painel das portas, que comportam garrafas PET de até 1,5 litro. Nota 10.
Acabamento – O Doblò deixa a desejar nesse quesito. Apesar do banco de couro opcional na versão testada, o painel traz plásticos que não aparentam qualidade. Além disso, há falhas nos fechamentos e encaixes das tapeçarias do teto e dos painéis, assim como nas borrachas de vedação das janelas. O enorme porta-trecos no teto tem várias rebarbas. Nota 6.
Design – O modelo não foge ao estilo controverso das multivans. O face-lift do ano passado apenas deu um sopro de arrojo no comportado design do carro, com faróis mais generosos e angulosos. A versão Adventure, pelo menos, empresta um jeitão mais aventureiro e jipeiro ao Doblò. Lá fora porém, já roda uma nova geração do Doblò, maior e mais moderna. Nota 5.
Custo/benefício – A versão Adventure do Doblò parte de R$ 61.170 e chega a R$ 65.671. Oferece uma lista de itens de série interessante, mas previsível para um modelo com estes preços. É bem mais cara que seu único rival, o Kangoo Sportway, mas oferece mais espaço interno, motor mais potente, pneus de uso misto, suspensão elevada e bloqueio do diferencial dianteiro. Nota 7.
Total – O Fiat Doblò Adventure somou 68 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Ideal funcional
É bastante raro ver alguém que morra de amores pelo Doblò. O visual controverso da multivan compacta da Fiat é até amenizado pelos apliques “fora-de-estrada” da versão Adventure. Mas nada que anime muito. Na verdade, o modelo atrai mesmo é quem busca espaço, assentos e funcionalidade. E nisso o carro produzido em Betim, Minas Gerais, é bem competente. O habitáculo do Doblò oferece uma área impressionante. Os bancos individuais atrás e o teto elevado corroboram para a sensação de amplitude. Não bastasse, o furgãozinho da marca italiana ainda conta com um sem-número de porta-trecos.
 
O motorista também tem uma boa vida a bordo. Além de ter lugar para qualquer traquitana, dispõe dos principais comandos ao alcance das mãos e dos olhos – a exceção fica mesmo pelos comandos do ar e do som. O câmbio projetado do console central, o volante com ajuste de altura e o bom espaço para pernas são outros aspectos que facilitam a condução. Isso sem falar na visibilidade generosa.
Essa praticidade do Doblò deixa claro que trata-se de um carro para cidade. Aspecto que é reforçado ao virar a chave da multivan. O motor 1.8 de 114 cv – com etanol – são desproporcionais aos mais de 1.400 kg do veículo. O motor até reage bem às pisadas no acelerador, mas o peso do veículo atrapalha as arrancadas. Sair da inércia e colocar o ponteiro nos 100 km/h, por exemplo, leva intermináveis 14 segundos. Nas retomadas, o motor até enche rápido, graças ao torque máximo já disponível nos 2.800 giros. Mesmo assim, o tamanho e peso do Doblò atrapalham uma melhor agilidade e é preciso paciência, atenção e reduzir a toda hora ao encarar ladeiras e nas ultrapassagens.
Os reflexos dessa aptidão mais urbana do Doblò também são percebidos na estabilidade. Aos 100 km/h a comunicação entre rodas e volante já começa a ficar comprometida e a multivan passa a flutuar bastante. Nas curvas, a carroceria torce demasiadamente e o modelo dá a impressão de que vai desgarrar. Ou seja, trata-se de um veículo para encher de pessoas e tralhas dentro, mas para andar “piano, piano”.



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