Tempero à brasileira
Nissan chega aos detalhes para se adequar ao gosto do brasileiro e emplacar o sedã Sentra no país
Auto Press
Texto: Fernando Miragaya
Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
A Nissan percebeu que vender no Brasil não é tão simples quanto parece. Ou seja, não basta trazer um sedã médio produzido no México, como o Sentra, e oferecê-lo a preços competitivos. Para o segundo "round", a montadora decidiu promover pequenas alterações, mesmo que nos detalhes, para tentar aumentar o apelo comercial do sedã médio no mercado brasileiro. Começou com a adoção do motor flex no ano passado, feito no México apenas para o Brasil. Agora, na carona de um face-lift igual ao modelo vendido no mercado norte-americano, a linha 2010 do três volumes ganhou novos equipamentos, como o sistema de som. E, importantíssimo, retrovisores rebatíveis. Item que parece uma bobagem, mas indispensável para a realidade brasileira. Apesar de ser um país tão grande territorialmente quanto os Estados Unidos, no Brasil as ruas e as vagas são apertadas, mais ao estilo Europeu.
A Nissan mudou para tentar alçar dias melhores para o Sentra. No ano passado, o modelo teve média de 480 unidades mensais, segundo dados da Fenabrave. Nos dois primeiros meses deste ano, somou 660 unidades, ainda muito atrás dos rivais Toyota Corolla, Honda Civic, Chevrolet Vectra, Citroën C4 Pallas, Ford Focus sedã e Kia Cerato. Mas o três volumes da Nissan tem diferenciais interessantes. E aposta neles. Como a transmissão continuamente variável, CVT, disponível de série na versão top SL avaliada e como opcional na intermediária S. Trata-se do único carro com transmissão continuamente variável do segmento e único do país casado com um propulsor flex – a Honda abdicou do CVT no Fit quando passou a adotar motor flex.
Coincidência ou não, são as configurações que concentram mais vendas do Sentra no país. Os modelos com a caixa CVT respondem por mais de 60% do mix da linha Sentra. A transmissão continuamente variável, batizada de XTronic, conta com overdrive e trabalha com o motor 2.0 16V flex. O propulsor tem comando variável de válvulas na admissão e gera 143 cv com qualquer combustível a 5.200 rpm. O torque máximo é de 20,3 kgfm, também com qualquer mistura, disponível aos 4.800 giros.
Na parte de equipamentos, o Sentra traz uma lista condizente com o segmento. Toda a linha conta com ar-condicionado analógico, direção elétrica, trio, banco do motorista e volante com regulagem de altura, controle de cruzeiro, alarme, travamento automático das portas, entre outros. Os itens de segurança, por sua vez, incluem airbag duplo e freios com ABS. A top SL vem com um bom recheio para justificar seus R$ 71.990. Tem rodas de liga leve aro 16, couro, computador de bordo, banco traseiro bipartido, faróis de neblina e comandos do som no volante, item introduzido na linha 2010. Airbags laterais e do tipo cortina, luz nos para-sóis e teto solar são alguns dos itens exclusivos da configuração SL. Falta, no entanto, ajuste digital do ar-condicionado, presente em todos os concorrentes top de linha.
O modelo top também ganhou outros equipamentos com a linha 2010. O novo sistema de rádio tem entradas para USB e iPod e tela colorida de 4,3 polegadas. Além disso, a versão passou a contar também com sensor de luminosidade e com o i-Key, que permite abrir as portas e ligar o carro com a chave no bolso – item que estreou na linha Livina. Tudo na carona do face-lift recente. O Sentra ganhou nova grade com três barras horizontais no lugar da tipo colmeia anterior. Os para-choques ficaram mais angulosos, ganharam vincos nas extremidades e contam com entrada de ar maior. Já o conjunto ótico passou a agregar lentes transparentes, setas integradas e refletores de superfície complexa.
A versão top, contudo, ironicamente peca nos detalhes. Não oferece itens como sensor de obstáculos e Bluetooth, por exemplo, nem mesmo como opcionais. Mas por R$ 71.990, tenta se aproximar de versões como as intermediárias LXL do Civic – R$ 72.475 – e XEi 2.0, do Corolla – R$ 75.830 – e as top Exclusive, do C4 Pallas – R$ 70.590 –, Elite, do Vectra – R$ 72.344 –, e Ghia, do Focus – R$ 73.730. Mas talvez, além de se adequar, a Nissan tenha de trabalhar na imagem do Sentra ser que ele seja visto como opção para o consumidor brasileiro.
Instantâneas
# O Nissan Sentra é fabricado na planta de Aguascalientes, no México.
# A atual geração do sedã foi lançado mundialmente em 2006 e chegou no ano seguinte ao Brasil. Uma geração anterior do Sentra, contudo, estreou por aqui em 2004.
# O modelo usa a plataforma C da Nissan, que é considerada compacta nos Estados Unidos.
# No mercado norte-americano, o Sentra conta com uma versão nervosa, chamada SE-R, que trabalha com um motor 2.5 de 200 cv.
# O trem de força 2.0 16V do Sentra é o mesmo do jipe XTrail e pertence à mesma família do motor 1.8 16V que equipa o Tiida e o Livina no Brasil.
# A Nissan faz parte do Grupo Renault desde 1998.
# No Brasil, a marca japonesa fabrica as minivans médias Livina e Grand Livina, além da pick-up Frontier, na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná.
Ficha técnica
Nissan Sentra SL 2.0 16V flex CVT
Motor: Gasolina e etanol, dianteiro, transversal, 1.997 cm³, quatro cilindros em linha, quatro válvulas por cilindro, duplo comando no cabeçote, controle de abertura e fechamento de válvulas variável. Bloco e cabeçote em alumínio, injeção e acelerador eletrônicos.
Transmissão: Câmbio do tipo continuamente variável com overdrive e ré. Tração dianteira. Não oferece controle de tração.
Potência máxima: 143 cv com gasolina ou etanol a 5.500 rpm.
Torque máximo: 20,3 kgfm com gasolina ou etanol a 4.800 rpm.
Diâmetro e curso: 84 mm X 90,1 mm. Taxa de compressão: 9,7:1
Suspensão: Dianteira independente do tipo McPherson, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Traseira em eixo de torção, com molas helicoidais, amortecedores hidráulicos e barra estabilizadora. Não oferece controle de estabilidade.
Freios: Discos ventilados na frente e tambor na traseira. ABS, EBD e assistente de frenagem de emergência.
Pneus: 205/55 R16 em rodas de liga leve.
Carroceria: Sedã em monobloco, com quatro portas e cinco lugares. 4,56 metros de comprimento, 1,79 m de largura, 1,51 m de altura e 2,68 m de distância entre-eixos. Oferece airbags frontais, laterais dianteiros e do tipo cortina na versão.
Peso: 1.359 kg em ordem de marcha, com 411 kg de carga útil.
Capacidade do porta-malas: 442 litros.
Tanque de combustível: 55 litros.
Produção: Aguascalientes, México.
Lançamento: 2006. Lançamento no Brasil: 2007.
Ponto a ponto
Desempenho – O Sentra é um sedã médio bastante esperto neste quesito. As arrancadas são eficientes e os 143 cv de potência respondem com destreza às investidas no pedal do acelerador. Uma performance otimizada ainda pelo câmbio CVT, que faz o sedã rodar suave e com agilidade. O zero a 100 km/h foi obtido em 10,3 segundos. As retomadas também merecem elogios. Além da transmissão eficiente, boa parte do torque já fica disponível aos 2.500 giros, o que favorece as ultrapassagens. Nota 8.
Estabilidade – O sedã mexicano é melhor nas curvas do que nas retas. Em trechos sinuosos, a carroceria torce dentro da normalidade e o modelo não faz menção de sair de frente em velocidades civilizadas. Nas retas, contudo, com o ponteiro do velocímetro já acima dos 130 km/h, a comunicação entre rodas e volante passa a ficar imprecisa e o Sentra se comporta como um típico banheirão norte-americano. Além disso, nas freadas bruscas, a suspensão não trabalha bem e o modelo mergulha além do recomendável, apesar de o ABS e EBD ajudarem a manter o carro na trajetória. Nota 7.
Interatividade – A nova tela de 4,3 polegadas para o sistema de som melhorou a interação do motorista com as funções do rádio. O novo quadro de instrumentos tornou a leitura mais clara e passou a incorporar as funções do computador de bordo. O Sentra conta com ajustes de altura da coluna de direção e do banco do motorista e o volante agora conta com comandos do som. Na maior parte das vezes, os comandos estão bem posicionados e são bastante intuitivos. A direção elétrica suave, sem ser molenga, facilita a vida do condutor. Ruim mesmo só na hora de estacionar, devido à traseira elevada do Sentra e às largas colunas traseiras, que atrapalham a visibilidade. Nota 8.
Consumo – O modelo fez a média de 6,1 km/l com etanol e uso 2/3 na cidade. Nota 7.
Tecnologia – O Sentra usa uma plataforma de 2006, bastante recente, ainda mais para os padrões brasileiros. Conta com um motor eficiente com comando variável de válvulas e é o único do segmento a dispor de caixa do tipo CVT. A suspensão traseira, porém, é por eixo de torção, enquanto a grande maioria dos rivais já adotou a independente multibraços, mais eficiente, porém mais cara. O sedã conta com airbag duplo e freios com ABS, sendo que a top SL ainda dispõe de bolsas laterais e do tipo cortina. O sistema de som é novo e passa a oferecer entradas USB e interface com iPod, mas não conta com Bluetooth. Não tem controle digital de temperatura no ar-condicionado. Nota 7.
Conforto – Com 2,68 metros de entre-eixos, o três volumes da Nissan oferece bom espaço para as pernas de todos os ocupantes. O vão para a cabeça também é interessante e atrás dois adultos e uma criança viajam sem grandes problemas. O câmbio CVT é um aliado do conforto por não reproduzir os trancos e imprecisões comuns de transmissões automáticas convencionais. O isolamento acústico é eficiente e a suspensão filtra bem os percalços do caminho. Nota 8.
Habitabilidade – O Sentra abusa dos porta-objetos no interior. Há diversos e práticos espalhados pelo carro e o destaque fica para o porta-trecos embutido no descansa-braço dianteiro com 4,8 litros de capacidade, capaz até de acomodar revistas. O porta-copos do console central também chama a atenção pelas inúmeras regulagens: para copos pequenos e grandes. O porta-malas de 442 litros conta com uma interessante divisória. Os acessos ao carro são bons e por dentro as luzes são eficazes, com spots de leitura na frente e atrás. Nota 9.
Acabamento – Apesar da aparência simples, os materiais usados no interior do Sentra são agradáveis ao toque e aos olhos. Os encaixes de painéis demonstram precisão. Os fechamentos também são bem-feitos e não há sinais de rebarbas aparentes. Nota 7.
Design – O Sentra tem um jeitão conservador e robusto. Ele abusa das linhas bem definidas e imponentes e tem o terceiro volume bastante elevado, o que deixa claro que foi pensado para o gosto do consumidor dos Estados Unidos. Nota 7.
Custo/benefício – A versão SL é a mais recheada, oferece uma boa quantidade de airbags e uma lista de equipamentos condizente com os R$ 71.900. Fica próximo dos rivais, mas peca por não oferecer uns poucos itens de conforto e conectividade. Nota 7.
Total – O Nissan Sentra SL somou 76 pontos em 100 possíveis.
Impressões ao dirigir - Cara e coração
O desempenho do Nissan Sentra SL contraria seu ar sisudo e robusto. O modelo oferece arrancadas boas para um automático. Para sair da inércia e chegar aos 100 km/h são necessários 10,3 segundos. Um desempenho que deve, e muito, ao câmbio tipo CVT – continuamente variável. Sem trancos, delays e buracos, a caixa favorece as arrancadas do sedã médio mexicano. O mesmo ocorre com as retomadas. Aos 2.500 giros já se tem boa parte do torque de 20 kgfm disponível. Motor cheio, o 60 km/h a 100 km/h é feito em 7,7 segundos.
E basta pisar mais para o Sentra ir além. Nas retas planas é possível alcançar os 190 km/h de velocidade final. Bem antes disso, porém, o modelo peca na estabilidade. A partir dos 130 km/h, o carro começa a balançar e flutuar bastante, o que exige correções a todo instante por parte do motorista. Nas curvas, o carro se mostra mais equilibrado e comportado. Não faz menção de rolar e torce a carroceria dentro da normalidade. Nas freadas bruscas, o ABS e o EBD mantêm o modelo na trajetória, mas a suspensão traseira mal calibrada levanta bastante e faz o sedã mergulhar em demasia.
A vida a bordo dentro do Sentra, em contrapartida, é bem agradável. A posição de dirigir é facilmente encontrada, os bancos abraçam bem os ocupantes e o espaço para pernas e cabeça é bom. A ergonomia é eficiente na maior parte das vezes. Destaque para o novo sistema de som com tela central de 4,3 polegadas e fácil visualização e operação. À disposição, ainda, práticos porta-objetos e porta-copos espalhados no console central, no painel frontal e nos painéis das portas.
De negativo mesmo a ausência de um Bluetooth, de ar digital e de sensor de obstáculos. Até porque a tampa do porta-malas alta e as largas colunas traseiras do Sentra atrapalham na hora de estacionar de ré com o carro, que já conta com dimensões bem avantajadas. O consumo fica dentro do esperado. O modelo testado, com uso 2/3 urbano e 1/3 rodoviário, anotou a média de 6,1 km/l com etanol.